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PRESIDÊNCIA
DO CONSELHO DE MINISTROS
Programa Nacional de
Prevenção das Toxicodependências
Projecto VIDA
Síntese do
Relatório Nacional do
Fenómeno da Droga
1996
Realizado pelo Observatório VIDA
ÍNDICE
O - Introdução
1 - Resumo da
Política sobre Droga
1.1. -
Breves antecedentes históricos
1.2.
- Filosofia, objectivos, aspectos principais
2
- Principais Intervenientes Administrativos e Organizacionais
2.1.
- Principais intervenientes, seu relacionamento e funções
2.2. -
Orçamentos e financiamentos
2.3. - Cooperação
internacional
3. -
Novos Desenvolvimentos no Corrente Ano
3.1.
- Alterações legislativas e organizacionais
4.
Desenvolvimento Histórico do Uso e Abuso de Droga (1960-1980)
5.
Situação Actual do Uso e Abuso de Droga
5.1. Consumo
de droga na população
5.2.
Padrões de uso e características dos consumidores
5.2.1.
Características dos consumidores
5.2.2. Padrões de uso
5.3.
Comportamentos de risco
5.4.
Factores de risco e factores de protecção
5.5. Perfil de uso
de drogas
6. Aspectos
Sociais e Culturais
6.1.
Processos Sociais, Contexto Cultural
7.
Problemas Associados ao Consumo de Droga
7.1. Mortalidade
7.2. Morbilidade
7.3.
Questões legais relacionadas com o consumo/ tráfico de drogas
8. Disponibilidade e
Oferta
8.1. Fontes de
proveniência
8.2. Indicadores de
oferta
9.
Intervenção na Redução da Procura
10. Conclusões
10.1.
Resumo dos pontos principais do relatório
10.2.
Tendências relevantes e novos desenvolvimentos
11.
Definição de alguns indicadores epidemiológicos
12. Glossário de
Siglas
INQUÉRITOS ESCOLARES / PORTUGAL 1995
O - INTRODUÇÃO
O presente relatório descreve a situação do uso e abuso de
drogas em Portugal em 1995. Nalguns casos são também
mencionados dados relativos ao ano de 1996 que já se encontravam
disponíveis por se considerarem relevantes para a compreensão
do fenómeno. Através deste documento pretende-se atingir dois
objectivos: apresentar um panorama geral da situação da droga
em Portugal, baseado na informação disponível, e fornecer ao
Observatório Europeu das Drogas e da Toxicodependência (OEDT)
os dados nacionais a integrar no Relatório Anual da Situação
da Droga nos Estados Membros, contribuindo para o cumprimento dos
compromissos de Portugal para com o OEDT.
Sendo este o primeiro Relatório Nacional realizado pelo
Observatório VIDA, contém também informação de carácter
histórico que contextualiza a situação portuguesa.
Pretende-se assim que o Relatório Nacional seja uma
referência na área das drogas e uso de drogas, o que implica o
desenvolvimento de uma abordagem crítica à metodologia de
recolha de dados para que sejam indicadores da evolução da
situação da droga em Portugal e possam ser situados no contexto
europeu. O acesso e recolha de dados nas várias áreas
identificadas como falhas de informação devem ser optimizados
de forma a melhorar os relatórios futuros.
Outra questão importante a abordar prende-se com a utilidade
do relatório: embora o objectivo principal seja a descrição do
fenómeno da droga em Portugal, a sua utilidade poderia ser
potencializada mediante a definição prévia das questões
relevantes para decisores e intervenientes na área.
A estrutura e especificações do relatório foram
uniformemente definidas para todos os Pontos Focais. O OEDT
prevê que os relatórios anuais futuros se adaptem à evolução
da conjuntura das drogas e uso de drogas, pondo em destaque
aspectos mais salientes ou críticos, mas mantendo a mesma
estrutura geral.
O presente relatório foi realizado pelo Observatório VIDA.
No entanto, este trabalho só foi possível graças à
cooperação das várias fontes de informação, a quem
especialmente se agradecem os contributos prestados,
destacando-se sobretudo os que foram disponibilizados pelos
Ministérios envolvidos no âmbito do Projecto VIDA.
Embora este documento represente uma síntese do relatório,
aquele encontra-se disponível para consulta nas instâncias
afectas ao Projecto VIDA.
1. Resumo da
Política sobre Droga
1.1 Breves
antecedentes históricos
Até 1987, não existia em Portugal um plano inter-ministerial
de prevenção da toxicodependência. Em 1976, foi implementado o
Gabinete Coordenador de Combate à Droga (GCCD) que dependia da
Presidência do Conselho de Ministros e coordenava e recolhia
informação de outras duas instituições: os três Centros de
Estudos e Profilaxia da Droga (CEPD), responsáveis pelas
questões da redução da procura; e o Centro de Investigação e
Controle da Droga (CICD), responsável pelas questões da
redução da oferta. Alguns hospitais, como por exemplo o
Hospital de Santa Maria, em Lisboa (desde 1973), dispunham
também de serviços de tratamento das toxicodependências.
O programa nacional Projecto VIDA foi criado em 1987, como
plano integrado de combate à droga. Consciente da complexidade
do problema, o governo propôs 30 medidas relativas a
prevenção, tratamento, reinserção e redução da oferta, que
deveriam ser desenvolvidas por seis ministérios diferentes. No
mesmo ano, o Ministério da Saúde criou o Centro das Taipas. Em
1989, criou outros dois centros especializados, em Faro e no
Porto e, em 1990, o Serviço de Prevenção e Tratamento da
Toxicodependência (SPTT). O SPTT foi incumbido de implementar e
gerir os Centros de Apoio a Toxicodependentes (CATs), sendo os
CEPDs nele integrados.
Em 1990, algumas das 30 medidas do Projecto VIDA foram
reestruturadas, conduzindo à criação da Comissão
Interministerial e do Conselho Nacional. Pretendia-se um maior
compromisso político no plano do combate à droga e a
mobilização da sociedade civil para o problema. Em 1992, foi
instituido o cargo de Alto Comissário.
Em 1993, foi promulgada a actual Lei da Droga (Decreto de Lei
15/93 de 22-1). Seguiu-se-lhe legislação relativa a
branqueamento de capitais, certificação de Organizações Não
Governamentais (ONGs) na área do tratamento da
toxicodependência e acesso do Projecto VIDA aos fundos do JOKER
para financiamento de projectos no âmbito da redução da
procura.
1.2
Filosofia, objectivos, aspectos principais
O problema do abuso de drogas foi sempre reconhecido na sua
vertente médica. Mesmo antes dos centros de tratamento terem
sido integrados no Ministério da Saúde, os aspectos
psico-sociais e preventivos sempre desempenharam um papel
significativo na abordagem do problema. No entanto, existia
então alguma preocupação com a relação institucional
próxima entre o tratamento e os aspectos legais.
Ao atribuir a responsabilidade pelo tratamento ao Ministério
da Saúde, em 1987, o governo reconhece a necessidade de separar
as vertentes oferta e procura e de considerar o consumidor como
um indivíduo com um problema de saúde, independentemente das
consequências legais/criminais do acto de consumir. A mesma
filosofia reflecte-se na actual Lei da Droga que prevê uma
suspensão da pena para os infractores com problemas de droga que
optem por aderir a um programa de tratamento.
A separação das áreas de redução da oferta e da procura
reflecte-se também na filosofia do Projecto VIDA. Este começou
por coordenar actividades de redução da oferta e da procura
mas, actualmente, embora mantenha uma ligação estreita com as
autoridades oficiais responsáveis pela redução da oferta,
apenas tem competência legais no âmbito das questões relativas
à prevenção.
Outro aspecto importante na política nacional sobre droga é
o apelo à participação da sociedade civil nas actividades de
redução da procura. Em muitos diplomas legais relativos ao
Projecto VIDA se reafirma a importância do papel da sociedade
civil na resolução dos problemas relacionados com a droga.
Neste sentido, foram tomadas várias medidas para assegurar apoio
financeiro e técnico a instituições que queiram implementar
programas nessa área.
2.
Principais Intervenientes Administrativos e Organizacionais
2.1.
Principais intervenientes, seu relacionamento e funções
O Projecto VIDA é um programa de coordenação intersectorial
que conta com os seguintes orgãos: a Comissão Interministerial,
o Conselho Nacional de Prevenção da Toxicodependência, o Alto
Comissário para o Projecto VIDA, a Comissão Coordenadora
Nacional e os Núcleos Distritais.
A Comissão Interministerial tem por objectivo
coordenar todos os sectores envolvidos no Projecto VIDA, é
presidida pelo Primeiro Ministro e tem a seguinte composição:
· Ministro da Defesa;
· Ministro da Administração
Interna.;
· Ministro da Justiça;
· Ministro da Educação;
· Ministro da Saúde;
· Ministro para a Qualificação e o
Emprego;
· Ministro da Solidariedade e
Segurança Social;
· Ministro Adjunto
· Alto Comissário
O Conselho Nacional de Prevenção da
Toxicodependência é um órgão de consulta do Primeiro
Ministro, composto por representantes de instituições
governamentais e não governamentais e por personalidades
especificamente designadas para o efeito.
O Alto Comissário para o Projecto VIDA tem por missão
acompanhar as acções e programas de prevenção da
toxicodependência e garantir a prossecução, a nível nacional,
das finalidades definidas para o Projecto VIDA.
A Comissão Coordenadora Nacional é o orgão
coordenador do Projecto VIDA. É presidida pelo Alto Comissário
e composta por representantes dos Ministros acima referidos.
Os Núcleos Distritais são os órgãos de
prossecução, a nível distrital, dos objectivos consagrados
pelo Projecto VIDA. O seu plenário é constituído pelo
coordenador do núcleo e por representantes dos serviços
dependentes de cada um dos ministérios que intervêm no Projecto
VIDA.
2.2 Orçamentos
e financiamentos
Cada Ministério envolvido no Projecto VIDA e o Gabinete do
Alto Comissário possuem orçamentos anuais, integrados no
Orçamento Geral do Estado aprovado pela Assembleia da
República. Para a realização de algumas actividades ou
programas específicos existe ainda a possibilidade de recorrer a
fundos do JOKER ou do Plano de Desenvolvimento da Administração
Central (PIDDAC). Uma estimativa feita em finais de 1995,
apontava para um orçamento global próximo dos 7.213.360 contos.
2.3. Cooperação
internacional
O Alto Comissário representa o Projecto VIDA a nível
internacional, com o objectivo de definir políticas e
estratégias coerentes e consentâneas com a evolução do
fenómeno da droga na Europa, em particular, e no mundo.
3.
Novos Desenvolvimentos no Corrente Ano
3.1.
Alterações legislativas e organizacionais
O ano de 1996 fica marcado pela publicação de dois diplomas
fundamentais:
a) A Lei 45/96, de 3-4, na área da redução da oferta, que
altera o Decreto-Lei nº15/93, de 22-1, (Lei da Droga). As
principais alterações são:
· Agravamento dos limites mínimo e máximo das penas
aplicáveis pela prática dos crimes de tráfico e associação
criminosa, que passam a ser sancionados com pena de prisão entre
5 e 25 anos;
· Consagração da figura do
"Agente infiltrado";
· Reforço das formas de cooperação
entre os serviços prisionais e os serviços de saúde para
assegurar os meios e estruturas necessários ao tratamento de
toxicodependentes em estabelecimentos prisionais.
b) O Decreto-Lei 193/96, de 15-10, reestrutura o Programa
Nacional de Prevenção da Toxicodependência - Projecto VIDA e
procede à definição dos princípios gerais organizadores das
suas acções e procedimentos, bem como à definição de
competências e relacionamento com outros intervenientes
nacionais. Este novo diploma estabelece como finalidades:
· Dinamizar a sociedade para a
resolução do problema da toxicodependência;
· Promover e articular as iniciativas
estatais, das autarquias locais e das ONGs.
O programa dispõe de cinco órgãos, já referidos, dos quais
cabe destacar o Alto Comissário e a Comissão Coordenadora
Nacional. O Projecto VIDA é descentralizado em 18 Núcleos
Distritais assegurando assim a implementação local dos
objectivos nacionais.
Cabe ainda referir o Despacho Conjunto de 9/10/96, secundado
por outro da mesma data assinado pela Ministra da Saúde,
Ministra para a Qualificação e Emprego, Ministro da
Solidariedade e Segurança Social e Ministro Adjunto do Primeiro
Ministro, que regulamenta e estabelece os critérios gerais para
a candidatura de ONGs a apoios a projectos de desenvolvimento de
actividades no domínios da prevenção secundária e terciária
da toxicodependência.
4.
Desenvolvimento Histórico do Uso e Abuso de Droga (1960 -
1980)
O aumento do problema da droga em Portugal ocorreu na década
de 70. Até então, o uso de drogas não era significativo e
encontrava-se localizado nas classes urbanas intelectuais e de
estatuto socio-económico mais elevado, assim como na classe dos
profissionais da saúde, levantando poucos problemas a nível
sanitário ou criminal. Os utilizadores de droga que recorriam a
centros especializados eram, principalmente, consumidores de
medicamentos, tais como morfina e anfetaminas. Só nos anos 70,
com o regresso dos soldados da guerra colonial, dos retornados e
dos exilados no estrangeiro, houve um aumento considerável do
uso de drogas - principalmente de canabis.
Pelo facto do uso de drogas não levantar muitos problemas, a
legislação portuguesa não incriminava o consumo directamente.
A sua importação e venda eram reguladas pelo direito fiscal e
durante algum tempo, após 1974, a dependência de drogas, que
continuava a ser rara, encontrava-se ainda especialmente
relacionada com o consumo de substâncias como a morfina e os
seus derivados.
À medida que aumentava a circulação de drogas e se assistia
a uma mudança inerente de atitudes em relação às mesmas,
também se foi alterando a interpretação política do seu uso e
do fenómeno em geral. As intervenções políticas e
legislativas adoptaram uma visão cada vez mais plural e
integrada do problema da droga e foram tomadas uma série de
medidas psicossociais, terapêuticas e legislativas de combate ao
problema.
Em 1976, foram criados três dispositivos institucionais
directamente relacionados com o problema da droga: o Gabinete
Coordenador de Combate à Droga (GCCD), na dependência da
Presidência do Conselho de Ministros, coordenava e recolhia a
informação dos Centros de Estudos e Profilaxia da Droga
(CEPDs), responsável por questões relativas à redução da
procura, e do Centro de Investigação e Controle da Droga
(CICD), responsável pelas questões relativas ao controle da
oferta.
Nos anos 80, houve uma mudança de cenário. Com a explosão
dos centros urbanos e a degradação e marginalização de
algumas comunidades, o uso e abuso de drogas aumentou, deixando
de ser apenas um fenómeno micro-cultural. As drogas começaram a
ser facilmente acessíveis, assistindo-se à explosão da
disponibilidade da heroína. Para além disso, fumar tornou-se
uma via de administração significativa para a heroína, o que
contribuiu para a disseminação do seu uso. Como consequência,
esta droga, juntamente com o haxixe, transforma-se na droga de
abuso mais utilizada. Este período corresponde também a uma
alteração na percepção da abordagem a fazer aos
toxicodependentes, cada vez mais considerados nas suas vertentes
clínica, social e psicológica.
Em 1983, o Decreto-Lei 430/83, de 13-12, reflecte esta nova
abordagem visto que prevê a suspensão da pena em alguns crimes
relacionados com droga se o infractor aceitar tratamento. Nesta
fase, a toxicodependência é cada vez mais vista como um
problema de saúde e não como crime e o consumidor é
considerado como um doente que necessita de cuidados de saúde,
tratamento e reabilitação.
Na mesma altura, é criado o Plano Nacional de Luta Contra a
Droga que, em 1987, conduz à criação do Projecto VIDA.
Os primeiros Centros de Apoio a Toxicodependentes (CATs),
criados pelo Ministério da Saúde, abriram, em 1987, em Lisboa
(Centro das Taipas). Em 1989, abriram no Porto (Cedofeita) e em
Faro. Actualmente, existem CATs por todo o país. Nessa altura é
também criado, no Ministério da Saúde, o Serviço de
Prevenção e Tratamento da Toxicodependência (SPTT).
O início da década de 90 caracterizou-se pelo acesso fácil
a heroína e a canabis e pelo aumento da oferta de cocaína. O
consumo de haxixe e heroína atinge tanto os centros urbanos do
interior como as zonas rurais. Aumenta também o uso e abuso de
cocaína, principalmente nas zonas urbanas.
O abuso de psicotrópicos sedativos e estimulantes diminuiu,
talvez devido à criação de medidas legais de controle e ao
maior cuidado dos profissionais de saúde em não facilitar o
acesso a este tipo de substâncias. Houve um aumento no consumo
de álcool, mas não se verificaram alterações significativas a
nível dos solventes.
5.
Situação Actual do Uso e Abuso de Droga
5.1. Consumo
de droga na população
Em 1989 e em 1995, o GPCCD realizou um inquérito em meio
escolar. Este estudo apresenta dados de prevalência do uso de
drogas e permite monitorizar a sua evolução .
O inquérito abrangeu os alunos do 7º, 8º e 9º ano de
escolaridade do território nacional (excepto a Madeira e os
Açores). Foi construída uma amostra representativa, a partir de
67 escolas oficiais, constituída por 4767 alunos, com idades
compreendidas entre os 14 e os 17 anos de idade, pertencendo
49.4% desses alunos ao sexo masculino e 50.6% ao sexo feminino. A
amostra foi estratificada pelo que o sexo, ano de escolaridade e
área geográfica são proporcionais à distribuição da
população escolar nacional.
O questionário era anónimo, confidencial e voluntário. O
preenchimento foi supervisionado pelos professores que receberam
formação prévia para tal. Os resultados referem-se a
prevalência ao longo da vida e nos últimos 30 dias.
Nos dados de 1995, verifica-se que a prevalência ao longo da
vida do consumo de drogas lícitas (álcool, tabaco e
medicamentos) é superior à de drogas ilícitas (haxixe,
cocaína, heroína). A prevalência de tabaco foi de 37.17%, de
álcool 58.17% e de medicamentos 11.07%. A prevalência de haxixe
foi de 3.15%, de cocaína 0.55% e de heroína 0.80% (ver
quadro I - pág. 12)
Quanto a áreas geográficas, o Alentejo apresentou a mais
elevada prevalência ao longo da vida de consumo de álcool
(65.04%), bem como uma elevada prevalência ao longo da vida de
consumo de tabaco (40.76% enquanto que, por exemplo, na área de
Lisboa, este valor foi 42.46%).
De entre os medicamentos de abuso, as substâncias que têm
uma maior prevalência ao longo da vida de consumo são os
tranquilizantes (9.83%). A Região do Centro e Lisboa registaram
elevadas prevalências ao longo da vida de consumo de
medicamentos, respectivamente 11.37% e 11.44%. No Algarve
registou-se a prevalência ao longo da vida de consumo mais baixa
(8.19%).
No que diz respeito às drogas ilícitas, as regiões de
Lisboa e do Algarve apresentaram a prevalência ao longo da vida
de consumo de haxixe mais elevada: 4.85% da população de Lisboa
inquirida consumiu haxixe pelo menos uma vez ao longo da vida,
sendo este valor 3.46% para o Algarve. A Região Norte tem a
prevalência ao longo da vida de consumo de haxixe mais baixa
(1.31%).
É interessante verificar que enquanto no Alentejo a
prevalência ao longo da vida de consumo de haxixe foi
relativamente baixa (2.75%), a de cocaína e heroína foram altas
(1.07% para a cocaína e 0.92% para a heroína). Estes últimos
valores são superiores aos de Lisboa (0.55% para a cocaína e
0.83 % para a heroína) e do Algarve (0.63% para a cocaína e
0.79 % para a heroína).
No que diz respeito à prevalência nos últimos 30 dias,
17.81% da população inquirida consumiu tabaco, 31.07% consumiu
álcool e 2.66% consumiu medicamentos. Relativamente às drogas
ilícitas, 1.39% consumiu haxixe, 0.13% cocaína e 0.22% heroína
(ver Quadro I - pág. 12).
Em termos de regiões específicas, verifica-se que, no
Alentejo, a prevalência nos últimos 30 dias de consumo de
tabaco e de álcool é bastante elevada (respectivamente, 24.44%
e 40.35%) e que a Região Norte regista a prevalência nos
últimos 30 dias de consumo de medicamentos mais elevada (3.12%).
No que diz respeito às drogas ilícitas, verifica-se que a
Região de Lisboa tem a prevalência nos últimos 30 dias de
consumo de haxixe mais elevada (2.48%), enquanto que a Região do
Algarve tem as prevalências nos últimos 30 dias de consumo de
cocaína e de heroína mais elevadas (ambas registando um valor
de 0.5%).
Comparando os dados de 1995 e 1989 , verifica-se que a
prevalência ao longo da vida de consumo de álcool e tabaco
aumentou tendo, no mesmo período, diminuído a de medicamentos.
Não se verificaram diferenças significativas para a
prevalência ao longo da vida de consumo de drogas ilícitas. No
que respeita a prevalência nos últimos 30 dias, verifica-se que
as de consumo de álcool e de medicamentos diminuiu, não se
tendo verificado alterações significativas na de tabaco e de
substâncias ilícitas.
Um outro estudo realizado em 1995 , foi dirigido aos alunos do
10º, 11º e 12º anos escolares (com idades compreendidas entre
os 16 e os 19 anos). Por ser um estudo transversal não permite
avaliar tendências, mas apenas descrever a situação actual dos
alunos deste grupo etário relativamente ao consumo de
substâncias psicotrópicas.
Utilizou-se o mesmo método de recolha de dados mas o
questionário foi ligeiramente alterado. A amostra foi
representativa do território nacional (excluindo Madeira e
Açores) e estratificada. Foram inquiridos 9774 alunos, num total
de 111 escolas oficiais, em que 42.3% eram do sexo masculino e
57.7% do sexo feminino.
Os dados mostram que o Alentejo tem as prevalências ao longo
da vida de consumo de álcool (95.17%) e de tabaco (72.90%) mais
elevadas. A Região Centro do país tem a prevalência ao longo
da vida de consumo de medicamentos mais elevada (29.10%).
Relativamente às drogas ilícitas, a prevalência ao longo da
vida de consumo de haxixe é mais elevada em Lisboa (18.55%) e
mais baixa na Região Norte (8.75%). A prevalência ao longo da
vida de consumo de cocaína apresenta valores semelhantes no
Algarve (1.16%), na Região Centro (1.12%) e em Lisboa (1.15%).
Por outro lado, a prevalência ao longo da vida de consumo de
heroína é mais elevada no Algarve (2.09%) do que na Região
Centro (1.74%) ou Lisboa (1.20%). De referir que Lisboa apresenta
a prevalência ao longo da vida de consumo de heroína mais
baixa.
O ecstasy é a droga ilícita que apresenta a prevalência ao
longo da vida mais baixa em todas as áreas geográficas, excepto
no Algarve onde este valor (1.16%) é idêntico ao da
prevalência ao longo da vida de consumo de cocaína.
No que diz respeito à prevalência nos últimos 30 dias de
drogas lícitas, verifica-se que a Região do Alentejo regista
novamente prevalências bastante elevadas, relativamente ao
consumo de tabaco (40.34%) e de álcool (72.52%). As prevalência
de consumo de medicamentos são mais elevadas na Região Centro
(9.53%), na Região Norte (8.29%) e em Lisboa (8.30%) e mais
baixas no Alentejo (5.91%).
Relativamente às drogas ilícitas, o Algarve regista uma
prevalência nos últimos 30 dias de consumo de haxixe de 5.97%,
o Alentejo de 6.89% e Lisboa de 6.77%. Em relação à cocaína,
verifica-se que 0.42% da população inquirida no Alentejo e
0.36% na Região Norte consumiu cocaína nos últimos 30 dias. O
valor mais elevado de prevalência de consumo de heroína foi no
Algarve (1.16%) e o menor em Lisboa (0.38%). A prevalência nos
últimos 30 dias de consumo de ecstasy não foi inquirida.
A comparação de dois estudos transversais (1990-1995) numa
amostra representativa em quatro comunidades juvenis de Lisboa,
sugere um aumento do contacto com solventes, álcool,
medicamentos, haxixe e cocaína e chama a atenção para o facto
do aumento do uso de medicamentos ter sido verificado
principalmente nas raparigas. Uma comparação entre a
prevalência ao longo da vida e a prevalência nos últimos 30
dias mostra um aumento no consumo de substâncias lícitas e
ilícitas, com excepção do tabaco que diminuiu e da heroína e
estimulantes que se mantiveram. A maioria dos primeiros contactos
com drogas lícitas tem lugar aos 14 anos de idade, a idade de
experimentar haxixe baixou dos 16 anos em 1990 para os 15 em 1995
e metade da população que experimentou solventes fê-lo antes
de ter 12 anos. A prevalência ao longo da vida e a prevalência
nos últimos 30 dias em 1995 foram 1.5% na heroína para as duas
prevalências e, respectivamente, 3% e 1% na cocaína e 14.5% e
9.5% no haxixe.
O mesmo estudo analisa variáveis com associação
significativa ao uso de drogas lícitas e ilícitas e é
mencionado noutros capítulos deste relatório.
Foram conduzidos dois outros estudos pilotos sobre
comportamentos de saúde em estudantes escolares do distrito de
Braga e do Funchal . Foi aplicado um inquérito, que não fazia
referência ao consumo de drogas ilícitas, a 889 alunos, com
idades compreendidas entre os 11 e os 17 anos, 41.4% do sexo
masculino e 58.5% do sexo feminino. Verificou-se que 58% destes
alunos nunca tinham experimentado tabaco, mas que, entre aqueles
que já o tinham feito, 42% fumava tabaco mais do que uma vez por
dia. Verificou-se ainda que 71% dos inquiridos já tinha
experimentado álcool, 64% não o consome regularmente e 77%
nunca se embriagou.
5.2.
Padrões de uso e características dos consumidores
5.2.1.
Características dos consumidores
O SPTT tem vindo a realizar anualmente, desde 1991, um estudo
de dois dias (Estudo Sagital) com o objectivo de estudar o perfil
dos clientes que recorrem aos CATs, os recursos terapêuticos
utilizados e os resultados clínicos alcançados. As várias
versões anuais deste estudo utilizam a mesma metodologia o que
permite a comparação dos resultados e a análise de tendências
de padrões de utilização e de comportamentos de risco (ver
pontos seguintes).
Embora com algumas limitações, estes estudos permitem a
vigilância de alguns aspectos importantes referidos nos
parágrafos seguintes. Em 1995 foi recolhida informação sobre
980 clientes possibilitando as seguintes conclusões :
· Os clientes dos CATs são
maioritariamente do sexo masculino (80.9%). A idade média é
27.4 anos, distribuída maioritariamente pelo grupos etários dos
20 - 24 anos (31.0%) e dos 25 - 29 anos (28.0%);
· A maioria dos clientes
encontrava-se abstinente na altura do inquérito (69.4%). Destes
35.6% (242 clientes) estava abstinente há mais de 6 meses e
15.9% (108) há mais de 3 meses e menos de 6 meses (ver gráfico
I);
GRÁFICO I
TEMPO DE ABSTINÊNCIA
Fonte e definição: SPTT
Retirado de : Félix da Costa, N., et al.
- Tratamento da toxicodependência: estudo sagital de
1995 in Toxicodependências , ano 2, nº3, Lisboa,
SPTT, 1996.
· Relativamente aos indicadores de
saúde referentes a doenças infecto-contagiosas, é importante
referir que o número de casos de infectados continua a aumentar.
No entanto, deve ser sublinhado que estes números correspondem a
taxas de prevalência e não a taxas de incidência, o que pode
significar que o número de casos novos não aumentou mas sim o
número de casos detectados. Por outro lado, mantiveram-se os
comportamentos de risco em muitos dos casos negativos para o HIV
e para os marcadores de hepatite (respectivamente 65,8% e 37.8%),
o que pode significar que estas taxas poderão aumentar se estes
indivíduos se tornaram positivos após terem feito as análises;
· No que respeita ao HIV,
verificou-se que 8.9% da população total era positiva (contra
7.3% em 1994) e que 65.8% do total era negativa. Os indicadores
de hepatite viral mostram que 35.7% dos clientes eram positivos
(contra 32.3% em 1994) e 37.8% eram negativos (ver gráficos II e
III);
GRÁFICO II
MARCADORES DE HIV
Fonte e definição: SPTT
Retirado de : Fèlix da Costa, N., et al. -
Tratamento da toxicodependência: estudo sagital de 1995
in Toxicodependências , ano 2, nº3, Lisboa,
SPTT, 1996.
GRÁFICO III
MARCADORES DAS HEPATITES
Fonte e definição: SPTT
Retirado de : Fèlix da Costa, N., et
al. - Tratamento da toxicodependência: estudo
sagital de 1995 in Toxicodependências , ano
2, nº3, Lisboa, SPTT, 1996.
Em 1995, foi ainda realizado outro estudo com uma amostra
constituída por 269 toxicodependentes em tratamento nos CATs da
Região Norte. Esta amostra tinha características semelhantes
às do estudo anterior. A idade média é 26.8 anos, distribuída
maioritariamente pelo grupo etário dos 25-29 anos. A maioria da
amostra é do sexo masculino (91.4%), solteiro (63.1%) e
desempregado (48.2%).
Em 1996, aplicou-se um inquérito a uma amostra de
toxicodependentes que injectam drogas, para se proceder à
avaliação do programa "Diz não a uma seringa em segunda
mão" . Esta amostra, constituída por 296 sujeitos, foi
recolhida durante uma semana nas consultas do CAT das Taipas (74
indivíduos) e no serviço de urgência das Taipas (35) e
recolhida, durante um dia, no posto móvel do Casal Ventoso (187
indivíduos).
A idade média destes indivíduos é 28.8 anos. São
maioritariamente do sexo masculino (83.4%). A maioria é solteiro
(70.3%) e não estudou além do 9º ano de escolaridade (58.8%).
Em relação ao HIV e à hepatite, a maioria dos indivíduos
declarou ser negativo para o HIV (67.9%); o mesmo se verificou
para o teste da hepatite B (68.6% declarou ser negativo). 14.5%
da amostra total, declarou ser positivo para HIV e 19.3% para
hepatite B. É importante mencionar que os indivíduos não foram
analisados neste estudo, mas apenas inquiridos quanto ao seu
estado.
5.2.2. Padrões de uso
O estudo do SPTT revelou que a maioria dos utilizadores que
procuram estes serviços são heroinodependentes (95.7%). Alguns
referiram o uso simultâneo de cocaína e de heroína. O número
de clientes que procurou estes serviços por uso de outras drogas
que não a heroína manteve-se, tal como nos anos anteriores,
baixo: 0.4% por uso de canabis, 0.2% por uso de álcool e 1.5%
por uso de cocaína.
No entanto, embora a percentagem de utilizadores de cocaína
se tenha mantido baixa (1.5%) o seu número duplicou entre 1994 e
1995. Assim, em 1994, 8 clientes (1% do total) procuraram ajuda
por consumo de cocaína contra os 15 que o fizeram em 1995.
Entre os heroinodependentes, um grupo significativo (371
clientes correspondendo a 37.8% do total) tem uma história de 2
a 6 anos de abuso de drogas. Para além disso, 34% desta
população refere mais de 6 anos de consumo de heroína e 85%
mais de 2 anos (ver gráfico IV).
GRÁFICO IV
TEMPO DE ABUSO DE DROGAS
Fonte e definição: SPTT
Retirado de : Fèlix da Costa, N., et al. -
Tratamento da toxicodependência: estudo sagital de 1995 in Toxicodependências
, ano 2, nº3, Lisboa, SPTT, 1996.
O estudo nos CATs da Região Norte revela alguns dados
interessantes sobre padrões de uso. A maioria dos sujeitos (83%)
iniciou o uso de drogas antes dos 20 anos de idade. Além disso,
a maioria (91.1%) refere que fumar foi a primeira via de
administração.
Entre os 269 indivíduos inquiridos, 211 referem ter tido uma
única droga ilícita de iniciação - que para a maioria foi
haxixe (88.6%). A heroína foi a droga de iniciação apenas para
10.4% destes indivíduos. Actualmente, a heroína é a principal
droga de abuso para 39.9% e, para 58.9%, a heroína e a cocaína.
5.3. Comportamentos
de risco
No estudo Sagital , na amostra de heroinodependentes, a
última via de administração de droga antes do questionário
foi a injecção em 41.0% dos casos (385 clientes) e o fumo em
39.1% dos casos (367 clientes) (ver gráfico V).
GRÁFICO V
VIA DE ADMINISTRAÇÃO DE
HEROÍNA
Fonte e definição: SPTT
Retirado de : Fèlix da Costa, N., et al. -
Tratamento da toxicodependência: estudo sagital de 1995
in Toxicodependências , ano 2, nº3, Lisboa,
SPTT, 1996.
Verificou-se também que 40.5% dos casos (392 clientes) tinha
partilhado seringas e que 40.9% referiu nunca o ter feito (ver
gráfico VI). Entre os que partilharam seringas, 10.7% (42 casos)
fizeram-no no último mês e 80.9% (317 casos) não o fizeram no
último mês (ver gráfico VII). Há a referir que 73.9% dos
clientes que não partilharam seringas no último mês,
fizeram-no num quadro de abstinência e não num quadro de
mudança de comportamento de risco.
GRÁFICO VI
PARTILHA DE SERINGAS
Fonte e definição: SPTT
Retirado de : Fèlix da Costa, N., et al. -
Tratamento da toxicodependência: estudo sagital de 1995
in Toxicodependências , ano 2, nº3, Lisboa,
SPTT, 1996.
GRÁFICO VII
PARTILHA DE SERINGAS NO
ÚLTIMO MÊS
Fonte e definição: SPTT
Retirado de : Fèlix da Costa, N., et al. -
Tratamento da toxicodependência: estudo sagital de 1995
in Toxicodependências , ano 2, nº3, Lisboa,
SPTT, 1996.
A avaliação do programa "Diz não a uma seringa em
segunda mão" mostra que a maioria dos inquiridos
(78.7%) injecta drogas várias vezes ao dia e que a maioria
(80.7%) utiliza a mesma seringa diversas vezes antes de a trocar.
No que diz respeito à utilização do material, verifica-se que
a maioria não partilha seringas (86.8%), agulhas (87.2%), caldo
(68.2%) ou algodão (67.6%) (ver gráficos VIII e IX). Para além
disso, verifica-se que 41.6% dos sujeitos inquiridos troca
seringas várias vezes ao dia, na farmácia ou no posto móvel e
30.1% troca seringas apenas uma vez por dia.
GRÁFICO VIII
FREQUÊNCIA COM QUE
INJECTA DROGAS
Retirado de: Félix da Costa N. & Ferraz de Oliveira,
F. - Avaliação do programa: "Diz não a uma
seringa em 2ª mão", 1996, (a ser publicado em
1997).
GRÁFICO IX
PARTILHA DE MATERIAL
Retirado
de: Félix da Costa N. & Ferraz de Oliveira, F. - Avaliação
do programa: "Diz não a uma seringa em 2ª mão",
1996, (a ser publicado em 1997).
Outro estudo foi levado a cabo entre Janeiro 1995 a Fevereiro
1996 , com o objectivo de estudar a associação entre o risco de
infecção pelo HIV ou pelo vírus da hepatite C e a existência
de comportamentos de risco, nomeadamente administração
endovenosa de drogas e partilha de material.
Este estudo é constituído por uma amostra limitada:
toxicodependentes dos CATs de Almada e Setúbal, sofrendo como
tal das mesmas limitações que o estudo Sagital mencionado
anteriormente.
Foram inquiridos 439 toxicodependentes, com uma idade média
de 26.13 anos. Destes, a maior parte (97.49%) consumia heroína e
administrava drogas por via endovenosa (70.16%).
Nos 381 casos em que foi possível determinar a via de
administração, verificou-se que a probabilidade de ser
contaminado pelo HIV ou pelo vírus da hepatite B era
significativamente mais elevada na população de
toxicodependentes que injecta drogas. Assim, entre as
populações de toxicodependentes seropositivos para o HIV e para
a hepatite C, 20.57% e 85.18%, respectivamente, utilizam a via de
administração endovenosa.
5.4.
Factores de risco e factores de protecção
Os factores de riscos e de protecção têm sido muito
mencionados nos últimos anos quer por políticos quer por
profissionais nesta área. No entanto, poucos estudos abordaram
esta questão de uma forma sistemática.
Um inquérito realizado junto de jovens em Lisboa concluiu que
há uma relação estatisticamente significativa entre o consumo
de drogas ilícitas e variáveis como a estrutura familiar, a
educação escolar dos pais, a ocupação dos tempos livres dos
jovens, o abandono e o insucesso escolar. Em termos das
variáveis consideradas mais pertinentes na intervenção
psico-social, foram estabelecidos os seguintes comportamentos e
atitudes de risco:
· Não querer continuar a estudar;
· Não ter um melhor amigo;
· Considerar a sua opinião pouco ou
nada importante para os amigos;
· Desistir da sua opinião, sempre ou
quase sempre, no grupo de pares;
· Calar-se quando não concorda com
as regras definidas pelos pais;
· Ter experimentado tabaco, cerveja
ou vinho;
· Ter experimentado haxixe.
O estudo referido dividiu a população em quatro grupos
(risco nulo, risco baixo, risco médio e alto risco) e concluiu
que, entre 1990 e 1995, quase todos os inquiridos referiram pelo
menos um dos comportamentos considerados de risco, que o grupo de
alto risco diminuiu (de 4% para 1%) e que os valores dos grupos
intermédios aumentaram (de 64% para 70% no grupo de risco baixo,
e de 21% para 24% no grupo de risco médio). O mesmo estudo
mostra que o grupo do sexo masculino é mais responsável pela
mudança do que o grupo do sexo feminino.
Um estudo comparativo realizado em 1994, com um grupo de 37
heroinodependentes do sexo masculino e com os respectivos irmãos
abstinentes, demonstra que existe uma série de factores
protectores do abuso de drogas. Alguns dos factores mencionados
na lista apresentada pela autora são:
· Percepção de que os amigos
raramente ou mesmo nunca consomem haxixe;
· Elevada auto-estima;
· Tendência reduzida para a procura
de situações de risco;
· Percepção de que o grupo de
amigos tem uma atitude pouco ou nada favorável ao consumo de
haxixe;
· Elevada intolerância ao desvio;
· Elevada resistência às pressões
dos pares.
Em 1994, o perfil dos alunos das escolas que estão integradas
no programa nacional de prevenção "Viva a escola"
revelou a existência de uma relação entre o uso de drogas e
determinados factores de risco, tais como:
· A pressão de pares;
· O consumo de substâncias lícitas
a nível do próprio e do grupo parental;
· O grau de nocividade atribuído às
substância lícitas e ilícitas e a acessibilidade, satisfação
e prazer associados a estas últimas;
· A situação e relações
familiares;
· Os tempos livres do indivíduo e da
família;
· A situação e dificuldades na
escola;
· Os registos de abandono e de
aborrecimento e certa sintomatologia depressiva a nível do
próprio.
5.5. Perfil de uso
de drogas
No tocante à população em geral, e embora não exista
informação disponível sobre estudos globais, podemos afirmar
que o haxixe é a principal substância ilícita de consumo. No
entanto, o consumo de drogas lícitas, nomeadamente álcool,
tabaco e medicamentos, apresenta taxas de uso e abuso mais
elevadas.
A principal droga de dependência é a heroína. O seu consumo
é o principal problema de 97.7% dos clientes dos CATs .
A análise dos resultados relativos aos presumíveis
infractores indica que o consumo de drogas ilegais se está a
expandir às zonas rurais do interior. Em 1995, muito embora as
zonas geográficas da infracção tenham sido fundamentalmente os
distritos de Lisboa (31.3%) e do Porto (22.1%), os distritos de
Faro, Braga e Setúbal registaram, também, uma importante
percentagem de presumíveis infractores, 8.9%, 7.5% e 7.3% do
total de casos respectivamente (ver quadro II).
QUADRO II
PRESUMÍVEIS INFRACTORES,
SEGUNDO A SITUAÇÃO FACE À DROGA,
POR ZONA GEOGRÁFICA DE
INFRACÇÃO
1995
|
Situação |
|
|
|
|
|
| |
TOTAL |
TRAFICANTE |
CONSUMIDOR |
TRAF.-CONS. |
N/ESPEC |
| Distrito |
|
|
|
|
|
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
|
1994 |
4 708 |
1 656 |
1 687 |
896 |
469 |
| Total Geral |
|
|
|
|
|
|
1995 |
6 380 |
2 183 |
3 012 |
1 185 |
.. |
| CONTINENTE |
6 269 |
2 136 |
2 977 |
1 156 |
.. |
| Aveiro |
290 |
93 |
153 |
44 |
.. |
| Beja |
139 |
21 |
64 |
54 |
.. |
| Braga |
457 |
82 |
300 |
75 |
.. |
| Bragança |
48 |
10 |
24 |
14 |
.. |
| Castelo Branco |
63 |
10 |
42 |
11 |
.. |
| Coimbra |
111 |
54 |
48 |
9 |
.. |
| Évora |
56 |
12 |
34 |
10 |
.. |
| Faro |
571 |
215 |
265 |
91 |
.. |
| Guarda |
26 |
4 |
19 |
3 |
.. |
| Leiria |
256 |
62 |
121 |
73 |
.. |
| Lisboa |
1 996 |
735 |
949 |
312 |
.. |
| Portalegre |
82 |
20 |
35 |
27 |
.. |
| Porto |
1 410 |
584 |
625 |
201 |
.. |
| Santarém |
159 |
32 |
87 |
40 |
.. |
| Setúbal |
464 |
170 |
156 |
138 |
.. |
| Viana do Castelo |
65 |
20 |
23 |
22 |
.. |
| Vila Real |
44 |
4 |
16 |
24 |
.. |
| Viseu |
32 |
8 |
16 |
8 |
.. |
| AÇORES |
66 |
27 |
22 |
17 |
.. |
| Angra do Heroísmo |
16 |
6 |
7 |
3 |
.. |
| Horta |
12 |
9 |
1 |
2 |
.. |
| Ponta Delgada |
38 |
12 |
14 |
12 |
.. |
| MADEIRA |
45 |
20 |
13 |
12 |
.. |
| Funchal |
45 |
20 |
13 |
12 |
.. |
Fonte: TCD e TCD/SDL (Instrumentos de notação
estatística da Polícia Judiciária). Retirado de: Ministério
da Justiça - Droga: Sumários de Informação Estatística:
1995. Lisboa, GPCCD, 1996.
Para além disso, a análise de tendências de tráfico e
consumo revela que a percentagem de presumíveis infractores
está a crescer no Algarve, assim como no resto do país. Em
1987, o Algarve representava 7% do total de presumíveis
infractores, contra 8.9% em 1995. O resto do país representava
27% desse total , contra 38% em 1995.
Os dados relativos à prevalência de consumo de substâncias
ilícitas na população escolar indicam que o consumo de droga
se está a expandir, das zonas urbanas do litoral, para as zonas
do interior.
Por exemplo, o Alentejo registou, relativamente aos estudantes
do 3º ciclo , taxas de prevalência ao longo da vida de consumo
de cocaína e de heroína superiores às registadas nas regiões
de Lisboa e do Algarve.
No que diz respeito aos estudantes do secundário ,
verifica-se que a prevalência nos últimos 30 dias de consumo de
cocaína é superior nos estudantes do Alentejo e do Norte à dos
estudantes das outras regiões (incluindo a de Lisboa). Neste
estudo foi incluída, pela primeira vez, uma pergunta sobre o uso
de ecstasy. As respostas a esta pergunta indicam uma
prevalência ao longo da vida de 0.65%. No entanto, no Algarve,
este valor atinge 1,16% , igualando a prevalência ao longo da
vida de consumo de cocaína.
A análise dos dados obtidos pelos estudos em meio escolar
revela ainda que as taxas de prevalência relativas ao consumo de
diferentes tipos de drogas tendem a aumentar com a idade . Em
Portugal Continental, as taxas de prevalência ao longo da vida
relativas a canabis, no 7º, 8º e 9º anos, são de 0.66% para
os alunos com idades inferiores a 14 anos, de 3.81% para aqueles
com idades compreendidas entre os 15 e os 16 anos e de 11.36%
para os estudantes com mais de 17 anos. A prevalência ao longo
da vida relativas ao consumo de LSD aumenta na mesma população
de 0.22% (entre os 15 e os 16 anos) para 1.25% (maiores de 16
anos ). Finalmente, a prevalência ao longo da vida de heroína
aumenta de 0.86% para 2.65% para os mesmos grupos etários (ver
quadro I - pág. 12).
O inquérito realizado junto dos alunos do ensino secundário
verifica que a prevalência ao longo da vida de canabis é de
7.6% no grupo etário menores de 16 anos, 14.4% nos estudantes
com idades compreendidas entre os 17 e os 18 anos e 17.8%
naqueles com idades superiores a 19 anos. Para além disso,
verifica-se que 2.03% dos alunos com mais de 19 anos já
consumiram cocaína pelo menos uma vez ao longo da vida e que
apenas 0.80% dos alunos com idades compreendidas entre os 17 e os
18 anos o fizeram. Esta tendência também está presente para o
consumo de heroína, se bem que de uma forma mais atenuada.
Assim, alunos com idades compreendidas entre os 17 e os 18 anos
têm uma prevalência de consumo ao longo da vida desta
substância de 1.30%, contra uma prevalência de 2.19% nos alunos
com idades superiores a 19 anos (ver quadro I - pág. 12).
Um estudo realizado em 1989 sobre o consumo de substâncias
psicotrópicas em populações reclusas revela que o tabaco
regista uma elevada prevalência (87.60% na população masculina
e 74.68% na população feminina). Comparando as populações
reclusas masculina e feminina verifica-se que a primeira tem
maiores consumos de álcool (com uma taxa de prevalência de
63.76%) e a segunda maiores consumos de medicamentos (com uma
taxa de prevalência de 72.11%).
O mesmo estudo indica que as drogas ilícitas apresentam taxas
de prevalência elevadas entre os reclusos. Assim, na população
masculina a taxa de prevalência de consumo de canabis é 47.45%,
de heroína 19.55% e de cocaína 14.21%. Na população feminina
a tendência é semelhante, se bem que as taxas sejam inferiores
às da população masculina: 19.84% das mulheres reclusas
consome canabis, 11.67% consome heroína e 9.24% consome
cocaína.
6 Aspectos Sociais
e Culturais
6.1
Processos sociais, contexto cultural
Em 1995, as estatísticas policiais assinalam o valor máximo
de sempre no que respeita aos casos designados por
"Presumíveis Infractores face à Droga" - 6380
pessoas, o que corresponde a um aumento de 36% em relação ao
valor de 1994. Neste ano, registam-se também mudanças
significativas nos perfis sociográficos desta população: (a) a
relação traficantes/consumidores que, em 1994 era 35.2%/35.8%
passou em 1995, para 34.2%/47.2%; (b) a relação
desempregados/empregados que, em 1994, era de 61.4%/29% passou,
em 1995, para 40.4%/37%; (c) o grupo dos menores de 20 anos que
vinha diminuindo desde 1987, de 1994 para 1995 passou de 11.2%
para 16.1%.
Estes dados exprimem um aumento da eficácia dos corpos
policiais, decorrente do "pânico moral" que se
instalou na sociedade portuguesa em relação à Droga e que
colocou o "combate à droga" nas prioridades da agenda
política. Esta "perfomance" da intervenção policial,
ao traduzir-se num substancial aumento dos "casos de
Droga" reprimidos, acabou por captar uma maior extensão das
práticas sociais que hoje-em-dia se relacionam com a Droga.
Porém, os dados de 95 parecem mostrar que o resultado desta
intervenção atingiu preponderantemente segmentos sociais que
não estariam contemplados nas expectativas e fundamentos do
discurso público justificativo das medidas repressivas, isto é,
grupos que se esperaria que não tivessem as relações mais
"desviantes" com a Droga. A saber, os consumidores, os
empregados e os mais jovens. Os processos sociais e os diferentes
tipos de práticas, nomeadamente institucionais, que dão
conteúdo a estes dados permitem, no entanto, relativizar e
questionar algumas destas aparências empíricas.
A Lei da Droga de 1993 criou a figura do tráfico de pequena
gravidade (individualizando-a do tráfico "tout court")
e alargou os quantitativos máximos de posse de droga
tipificadores das figuras do "traficante-consumidor" e
"consumidor". Deste modo, o maior peso dos consumidores
no ano de 1995 poderá traduzir um mero jogo adaptativo por parte
daqueles que são alvo da intervenção policial, no sentido de
maximizarem os riscos mínimos que resultam do novo enquadramento
legal ou, quiçá mesmo, um mero reordenamento classificatório
fruto das alterações de conteúdo ocorridas naquelas categorias
jurídicas. Por outro lado, esta melhor eficácia policial
poderá exprimir uma realidade social inextrincável entre
consumo e tráfico, a qual é de admitir que domine presentemente
as práticas que se polarizam de forma predominante em torno da
Droga, só separáveis, em muitos casos, por efeito do processo
judicial.
Em Portugal, existe apenas um estudo exploratório sobre o
funcionamento do mercado da Droga realizado na cidade do Porto, e
não existe um conhecimento aprofundado sobre a população
visada pelo aparelho policial. No entanto, alguns indicadores
autorizam a pensar esta significativa justaposição de estatutos
na população alvo do aparelho policial. Desde logo, pela
centralidade da droga de eleição em todas as categorias desta
população - a heroína: em 1995, os "presumíveis
infractores" da heroína representaram 78.5% na categoria
dos traficantes e 75% na categoria dos consumidores. Nos anos 90,
aliás, o perfil de presumíveis infractores por tipo de droga é
sempre muito similar entre as 3 categorias, dando assim
indicações que a actuação policial incide sobre um mercado
homogéneo. Por outro lado, as estatísticas mostram também que
o designado "pequeno tráfico" representou cerca de 90%
das apreensões imputadas ao tráfico em 1995, o que aponta para
uma forte polarização da categoria dos traficantes às
restantes categorias, tendo em conta que, em muitos casos, face
aos meios de prova existentes, a classificação do presumível
infractor opera-se a partir do enquadramento da Droga apreendida
na sua posse nos quantitativos que a Lei tipifica para cada
categoria.
Conhece-se, no entanto, a circulação de papéis entre
tráfico e consumo através dos relatos dos próprios e dos
toxicoterapeutas. Ainda assim, dois dados das estatísticas da
Justiça indiciam esta ligação pela homologia de perfis
sociológicos entre traficantes e consumidores que induzem.
Assim, 1995 regista o maior valor de sempre do grupo etário
"30 e mais anos" na categoria dos consumidores - 32.1%
- (em 1994 representaram 25%) num sentido de aproximação aos
41.1% que registam na categoria dos traficantes (em 1994, 42.1%).
Por outro lado, num processo de nivelamento "por
baixo", isto é, num sentido acentuadamente desqualificado
de aproximação do perfil de instrução dos consumidores ao dos
traficantes, a relação de escolarizações entre os níveis
"até ao 2º ciclo do Ensino Básico" e "do 3º
ciclo do Ensino Básico ao Ensino Superior" passou a ser, em
1995, de 95%-5% nos traficantes e de 85%-15% nos consumidores,
enquanto, em 1994, era de 69%-31% nos traficantes e de 47%-53%
nos consumidores.
Estes dados sobre a elevada desqualificação social da
população que se relaciona com a Droga (nomeadamente, a
classificada como consumidora) apanhada nas malhas da justiça
não se confirmam no dispositivo médico. A evolução da
relação entre os níveis de escolarização " até ao
Ciclo Preparatório (hoje 2º ciclo do Ensino Básico)" e
"3º ciclo do Ensino Básico - Ensino Superior" que se
retira dos estudos feitos junto dos utentes dos centros do
Serviço de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência é a
seguinte: em 1993, 53.1%-46.9%; em 1994, 37.3%-62.7% e em 1995,
38.7%-61.3%. Este contraste social entre o dispositivo
jurídico-policial e o dispositivo médico do sistema de controle
da Droga não pode deixar de interrogar os processos sociais que
conduzem a que o primeiro se dirija às classes baixas e o
segundo seja apropriado por um conjunto socialmente mais
diversificado.
A conjugação de uma acentuada
desqualificação-juvenilização, tanto nas categorias do
tráfico como nas do consumo, torna inteligível a Droga como
organizadora de estratégias de vida que fazem emergir a
plausível junção tráfico/consumo num cada vez maior número
de agentes. Não será sintoma desta participação crescente da
Droga em estratégias de uma melhor "integração
social" para os sectores socialmente mais débeis, o peso
crescente das mulheres nesta população que de 1994 para 1995
passaram de 9% para 10.5% nos consumidores e de 15.9% para 19.8%
nos traficantes (valor máximo de sempre)? No mesmo sentido se
poderá incluir o maior equilíbrio entre as categorias de
Empregado e Desempregado. De facto, hoje em dia a transição
social dos jovens é pautada, não especificamente pelo
Desemprego, mas pela precarização e intermitência face ao
trabalho, o que se ajusta ao funcionamento dos mercados e
práticas que sustentam a Droga como actividade económica. Por
outro lado, sabe-se que as mulheres são as mais atingidas pelos
ciclos económicos recessivos, como aquele que a Europa tem
atravessado ao longo dos anos 90.
Mas a exposição da sociedade à Droga, e em particular dos
jovens, não se observa apenas a partir do controle dos seus
efeitos problemáticos. Ao longo dos anos 90 realizaram-se
diferentes pesquisas que visaram, nomeadamente, observar os
consumos de Droga junto da população juvenil.
O manancial de dados produzido por esses estudos aponta para
uma assinalável convivência dos jovens com a Droga. Esta
conclusão é desde logo indiciada pelas taxas de prevalência ao
longo da vida que, em diversos anos e no grupo etário 15-19
anos, oscilam entre os 20 e 15%. Neste sentido, registam-se em
1995, em alunos do Ensino Secundário, as taxas de 18.8% nas
escolas da Região de Lisboa, de 18.3% nas escolas do Alentejo e
de 17.9% nas do Algarve. No estudo de 1993 sobre os alunos do
Ensino Secundário de escolas de 6 freguesias da Região da
Grande Lisboa obteve-se a taxa de 15.9% e no estudo sobre os
jovens 16-19 anos de 4 freguesias da cidade de Lisboa esta taxa
foi de 17%.
É admissível considerar que a expressão desta convivência
dos jovens com a Droga é superior ao que se infere destes dados.
Porém, não será abusivo concluir, de forma genérica, pela
expressiva convivência dos jovens com a Droga ao verificar-se
que, a grande maioria dos jovens conhece pessoas que já
consumiram Droga. Por seu turno, os dados disponíveis indicam
que o início de experimentação com a Droga (mais precisamente
com os canabinóides) ocorre, predominantemente, aos 15 anos.
Estes dados só podem ser interpretados no âmbito dos
contextos sociais de que participam. Destes estudos se pode
inferir que entre os jovens o relacionamento com a Droga é
hegemonizado por padrões bem distintos do uso toxicomaníaco.
Saliente-se, a este respeito, a queda abrupta de valores em todos
aqueles estudos, entre a taxa de prevalência ao longo da vida e
nos últimos 30 dias e o facto da substância que fixa os valores
da prevalência da Droga ser o haxixe, sendo as diferenças de
prevalências entre o haxixe e a heroína muito elevadas.
No âmbito das preocupações etiológicas que sempre
acompanham os estudos sobre o consumo de Droga, as pesquisas já
referidas procuraram detectar os factores que mais se associam ao
uso da Droga, sustentando que este se encontra essencialmente
ligado a "desequilíbrios" relacionais no meio social
de origem dos alunos (família), e no meio ocupacional (escola) e
de lazer, assim como a condutas e atitudes favoráveis ao consumo
de drogas lícitas.
O estudo sobre os jovens de 4 freguesias de Lisboa (12)
conclui que as variáveis associadas à experimentação da Droga
são a estrutura monoparental da família, o facto dos jovens
estarem fora do contexto escolar e a interrupção e repetência
escolar, concluindo assim as autoras que a escola funciona como
factor de protecção.
Perante a familiaridade já referida com a Droga, alguns dados
disponíveis apontam, no entanto, para uma rejeição cognitiva
maciça da Droga por parte dos jovens. Por exemplo, no estudo dos
alunos do 3º ciclo das escolas com programas de educação para
a saúde, mais de 96% reconhecem as drogas ilícitas como
prejudiciais e, entre os próprios consumidores de drogas
ilícitas, 85% reconhece o haxixe como prejudicial, 95% a
cocaína e 95% a heroína. Uma pesquisa realizada em 1994 junto
de escolas de Lisboa do Ensino Superior mostra que os estudantes
consideram as drogas ilícitas "leves" como prejudicais
(média de 6.6 numa escala de 1 a 10) e as "duras" como
muito prejudiciais (média de 8.5 para a cocaína e 9.4 para a
heroína). O inquérito de Loures contém a este respeito
elementos significativos: apenas 6% aprova o "fumo regular
de haxe" e a "experiência de drogas duras"; nem
1% aprova o consumo regular de "drogas duras" e só 9%
aprova a despenalização de "drogas duras", em
contraste com 23% que aprova a despenalização das "drogas
leves".
Estes dados permitem concluir que as drogas ilícitas (como
também algumas lícitas) estão cognitivamente registadas nas
percepções de risco, mas que existem diferenças entre o haxixe
e a heroína. Todavia, ao comparar-se os dados sobre práticas e
valores, ou melhor, sobre auto-relato de práticas e
valores/representações/atitudes sociais, não parecem ser os
mesmos inteiramente coincidentes no campo da Droga. Ter-se-á
assim que interpretar esta dissonância à luz das intensas
campanhas de informação/prevenção/ controle que diversos
dispositivos institucionais têm levado a cabo nos anos 90,
acompanhados pela amplificação mediática que caracteriza o
tratamento do tema da Droga. Neste sentido, o que se poderá
concluir é que os jovens reproduzem as representações muito
negativas que socialmente recaem sobre a Droga.
Um dado que parece explicitar a relação entre os controles
sociais e a interiorização do interdito social da Droga nos
jovens recolhe-se do estudo efectuado junto dos alunos do Ensino
Secundário das escolas de Portugal Continental. Neste,
verifica-se existir uma distribuição muito desigual de
prevalências do consumo de haxixe entre o Norte e o Sul do
País. Melhor, entre o Norte e o Sul não há distinção nas
prevalências ao longo da vida para a heroína, mas já existe
uma acentuada diferença no que respeita ao haxixe que regista os
seguintes valores: 8.7% nas escolas do Norte; 11.2% nas escolas
do Centro; 18.6% nas escolas de Lisboa e 17.9% tanto nas do
Alentejo como nas do Algarve.
Uma hipótese de explicação para esta distribuição poderá
recorrer ao funcionamento do mercado da Droga. No entanto, a
atender aos resultados daquele estudo, não parece haver
discriminação de consumo, no que respeita à heroína, entre
Norte e Sul e os mercados de canabis e de heroína do lado da
oferta retalhista não parecem ser segmentados em Portugal.
Parece, assim, ser mais consistente analisar aquelas
diferenças do lado da procura, isto é, em função de
reais diferenças de atitudes e práticas entre os jovens do
Norte e do Sul. Neste caso, parece ser de admitir que aqueles
dados possam exprimir uma diferença de normas internas face aos
consumos de drogas ilegais. Atendendo a que discriminam grandes
espaços socio-geográficos terão que ser relacionadas com as
variáveis sociológicas mais discriminativas entre o Norte e Sul
de Portugal. A que se afigura mais importante é a muito distintareligiosidade entre Norte e Sul, conforme se atesta no
último inquérito sobre valores europeus realizado em 10
Países, entre os quais Portugal. Este estudo, que vem confirmar
os estudos de sociologia religiosa em Portugal, aponta o Norte
como tendo os valores mais altos do indicador de religiosidade,
em contraste com o que ocorre na Grande Lisboa, Alentejo e
Algarve que são as regiões de menor religiosidade. Será,
assim, de colocar a hipótese das diferenças de prevalência do
consumo de haxixe entre Norte e Sul radicarem na importância do
dispositivo de controle social religioso para uma
interiorização de normas que fazem corresponder as fronteiras
subjectivas do desvio nos jovens às fronteiras legais. O mesmo
não se passará na Grande Lisboa, Alentejo e Algarve. Tendo em
atenção as sociabilidades que acompanham os usos do haxixe é
de admitir que este faça parte de uma simples desviância
primária nestas regiões, estando a fronteira da desviância
secundária traçada distintamente das normas legais, isto é,
entre o haxixe e a heroína.
7.
Problemas Associados ao Consumo de Droga
7.1. Mortalidade
A mortalidade associada ao consumo excessivo de drogas é um
dos indicadores habitualmente usados para medir a magnitude do
problema da toxicodependência. A sua taxa deveria ser calculada
com base nos totais de mortes atribuídas a esta causa, de acordo
com a Cassificação de Doenças, Traumatismos e Causas de Morte
(CID-9) utilizada pela generalidade dos países da Europa.
Verificou-se, no entanto, que a tipologia usada nas
classificações estatísticas internacionais não permite o
isolamento rigoroso das mortes relacionadas com o consumo de
drogas (overdose ou outras causas associadas ao consumo
excessivo).
Assim, importa analisar, nos registos de morte em Portugal, as
estatísticas relativas às mortes por "sintomas, sinais e
afecções mal definidos".
Tomando como grupo de referência os indivíduos do sexo
masculino pertencentes à faixa etária dos 20 aos 29 anos -
i.e., o grupo em que o consumo de drogas apresenta,
habitualmente, prevalências mais altas - verifica-se que, por um
lado, a variação das taxas de mortalidade por "sintomas,
sinais e afecções mal definidas" tem tido, entre os anos
de 1969 e 1993, uma tendência claramente crescente; tendência
que se tornou significativamente mais acentuada a partir de 1985.
Tal tendência crescente não foi, no entanto, verificada nas
mortalidades por outras causas frequentes nas idades jovens (por
exemplo, por acidentes e quedas acidentais).
Por outro lado, e de acordo com os resultados dos Institutos
de Medicina Legal de Lisboa, Porto e Coimbra, para população
idêntica, verificamos que o número de mortes provocadas por overdose
nestes distritos também sofreu um aumento significativo a partir
de 1986.
Assim, verifica-se que a taxa de mortalidade por causa
desconhecida (de acordo com o CID-9) se tornou significativamente
mais acentuada a partir de 1985, o que coincide com o aumento do
número de mortes por overdose, registado pelos Institutos
de Medicina Legal.
Ainda de acordo com os dados dos Institutos de Medicina Legal
de Lisboa, Porto e Coimbra , verificou-se que, em 1995, morreram
por overdose ou por outra causa relacionada com o consumo
de drogas, 196 indivíduos. Esta tendência tem vindo a aumentar
desde os últimos anos, tendo-se registado, por exemplo, em 1988,
apenas 33 casos de morte por overdose ou por outra causa
relacionada com o consumo de drogas. Há ainda a referir que, em
1993, se observou uma quebra no número de mortes por overdose
ou por outra causa relacionada com o consumo de drogas (100
casos, contra 142 em 1994 e 155 em 1992).
Entre os óbitos por overdose ou por outra causa
relacionada com o consumo de drogas ocorridos em 1995, a grande
maioria era do sexo masculino (90.3 %, contra apenas 9.7 % de
indivíduos do sexo feminino). Do mesmo modo, o grupo etário
mais afectado foi o dos maiores de 29 anos (42.3% dos óbitos
pertencia a este grupo etário), seguido do grupo dos 25 - 29
anos (30.1%) e do grupo dos 20 - 24 anos (23.0%).
Relativamente ao tipo de droga consumido na altura da morte,
verificou-se que em 42.3% dos casos consumia heroína, 30.6%
consumia, simultaneamente, heroína e cocaína e que 15.8%
consumia, simultaneamente, heroína e álcool (ver quadro III).
QUADRO III
MORTES DEVIDAS A OVERDOSEE RELACIONADAS COM O CONSUMO DE DROGA, SEGUNDO O GRUPO
ETÁRIO E SEXO, POR TIPO DE DROGA
1995
|
G. Etário/Sexo |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
| |
TOTAL |
TOTAL |
|
15-19 |
|
20-24 |
|
25-29 |
|
> 29 |
|
Desc. |
|
| T. Droga |
GERAL |
H |
M |
HM |
H |
M |
HM |
H |
M |
HM |
H |
M |
HM |
H |
M |
HM |
H |
M |
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
10 |
11 |
12 |
13 |
14 |
15 |
16 |
17 |
18 |
19 |
| Total Geral |
196 |
177 |
19 |
6 |
5 |
1 |
45 |
42 |
3 |
59 |
53 |
6 |
83 |
75 |
8 |
3 |
2 |
1 |
| Heroína |
83 |
75 |
8 |
3 |
2 |
1 |
23 |
22 |
1 |
21 |
18 |
3 |
34 |
32 |
2 |
2 |
1 |
1 |
| Cocaína |
9 |
7 |
2 |
.. |
.. |
.. |
1 |
1 |
.. |
2 |
2 |
.. |
5 |
3 |
2 |
1 |
1 |
.. |
| Haxixe |
1 |
1 |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
1 |
1 |
.. |
.. |
.. |
.. |
| Heroína+ Álcool |
31 |
31 |
.. |
.. |
.. |
.. |
3 |
3 |
.. |
12 |
12 |
.. |
16 |
16 |
.. |
.. |
.. |
.. |
| Heroína+Cocaína |
60 |
52 |
8 |
2 |
2 |
.. |
15 |
13 |
2 |
23 |
20 |
3 |
20 |
17 |
3 |
.. |
.. |
.. |
| Heroína+ Medicamento |
3 |
3 |
.. |
.. |
.. |
.. |
1 |
1 |
.. |
.. |
.. |
.. |
2 |
2 |
.. |
.. |
.. |
.. |
| Heroína+Cocaína+Álcool |
6 |
5 |
1 |
.. |
.. |
.. |
2 |
2 |
.. |
1 |
1 |
.. |
3 |
2 |
1 |
.. |
.. |
.. |
| Heroína+Cocaína+Medic. |
1 |
1 |
.. |
1 |
1 |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
. |
.. |
| Heroína+ Med.+Álcool |
1 |
1 |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
1 |
1 |
.. |
.. |
.. |
.. |
| Her.+Coca+ Álc.+ Medic. |
1 |
1 |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
1 |
1 |
.. |
.. |
.. |
.. |
| Desconhecida |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
Fonte: Institutos de Medicina Legal
Retirado de: Ministério da Justiça - Droga:
Sumários de Informação Estatística: 1995. Lisboa, GPCCD,
1996.
Segundo dados fornecidos pela Comissão Nacional de Luta
Contra a SIDA , de todas as mortes relacionadas com a SIDA
ocorridas entre 1983 e Setembro de 1996 (num total de 2220, sendo
estes dados provisórios), constatou-se que 32.1% eram
toxicodependentes, 30.5% eram homossexuais ou bissexuais e 25.4%
heterossexuais.
7.2. Morbilidade
De acordo com os dados fornecidos pela Comissão Nacional de
Luta Contra a SIDA , em 1995 foram diagnosticados 649 novos casos
de SIDA, que correspondem a 20.2% do número total dos casos
diagnosticados desde 1983. Em 1996, foram diagnosticados 335
novos casos de SIDA (dados provisórios). Este número tem vindo
a aumentar desde 1983, tendo-se registado entre 1992 e 1993, um
aumento bastante significativo (31.5%).
Entre 1983 e Setembro de 1996, foram diagnosticados 3575 novos
casos de SIDA, dos quais a maioria é do sexo masculino (84.0%) e
grande parte pertence às categorias etárias dos 25 - 29 anos
(20.98 %) e dos 30 - 34 anos (19.91 %). Entre os casos
diagnosticados, verifica-se uma grande percentagem de
toxicodependentes (37.4%, contra 25.7% homossexuais ou bissexuais
e contra 26.2% heterossexuais).
Estes dados confirmam a ideia de que actualmente a mais
importante categoria de transmissão do vírus HIV é a
toxicodependência. De facto, segundo dados referidos no Estudo
Multi-Cidades , em 1995, de todos os casos diagnosticados com
SIDA, 52.1% era consumidora de droga por via endovenosa (Gráfico
X).
No entanto, o cenário não foi sempre este. Com efeito,
registou-se uma mudança significativa entre o número de casos
com SIDA nas populações homossexuais e bissexuais e nas
populações de toxicodependentes.
Assim, entre 1983 e 1990, 323 dos casos diagnosticados com
SIDA eram bissexuais ou homossexuais (44.7% do total). Em 1995,
os mesmos grupos constituíam, apenas, 14.8% do total de casos
com SIDA. Entre 1983 e 1990, 92 dos casos diagnosticados com SIDA
eram toxicodependentes (12.7% do total). Em 1995, esse número
tinha aumentado para 331 (51.0% do total de casos diagnosticados
com SIDA) (ver gráfico X). Em termos da população
heterossexual também se registou uma ligeira alteração: entre
1983 e 1990, a percentagem de heterossexuais diagnosticados com
SIDA era de 26.1% e, em 1995, essa percentagem era de 14.2%.
GRÁFICO X
Fonte: Sumários de
Informação Estatística 1995, GPCCD, 1996
Fonte e definição: SPTT
Retirado de : Félix da Costa, N., et al.
- Tratamento da toxicodependência: estudo sagital de
1995 in Toxicodependências , ano 2, nº3, Lisboa,
SPTT, 1996.
De acordo com os resultados obtidos no Estudo Sagital ,
realizado com a população restrita de toxicodependentes que
recorrem aos CATs para tratamento, o número de casos de Hepatite
B tem aumentado progressivamente entre 1992 e 1995. Assim, se, em
1992, 20.2% destes toxicodependentes eram seropositivos para a
Hepatite B (contra 38.0% seronegativos), em 1995, esta
percentagem tinha aumentado para 36.1% (contra 37.4%
seronegativos).
Foram realizados dois estudos com grávidas-toxicodependentes,
na Maternidade Dr. Alfredo da Costa. Um dos estudos centrou-se na
mães toxicodependentes e o outro nos recém-nascidos de mães
toxicodependentes.
O primeiro destes estudos permitiu estabelecer o perfil das
mães toxicodependentes que recorreram à Consulta de Grávidas
Toxicodependentes entre Outubro de 1989 e Dezembro de 1992.
Assim, na sua maioria, eram mulheres com idade compreendida entre
os 30 e 40 anos, solteiras (61%) e com um parceiro fixo também
toxicodependente (80%). Eram mulheres heroinodependentes, com
comportamentos politoxicofílicos, utilizando drogas por via
endovenosa (47%). 37% eram positivas para o vírus da hepatite B,
29% para o vírus da hepatite C e 10% para o HIV. 98% não usava
qualquer tipo de contracepção.
Ao longo da gravidez, aumentou a taxa de abstinência do uso
de drogas sendo no entanto frequente o consumo de drogas legais.
60% das mulheres consumia 7 a 20 cigarros por dia.
Entre as complicações mais importantes registadas durante a
gravidez contam-se, infecções genitais múltiplas (39%), atraso
do crescimento intra-uterino (26%), ameaça de parto pré-termo
(14%) e parto pré-termo (15%). Não se registaram anomalias
congénitas.
O segundo estudo foi realizado entre Novembro de 1991 e
Fevereiro de 1993, com uma amostra de 94 recém-nascidos filhos
de mães toxicodependentes. Há a referir que grande parte dos
recém-nascidos (46.8%) sofreram de síndrome de privação,
tendo 54% recebido terapêutica farmacológica. A pesquisa de
tóxico na urina foi positiva em 88% dos recém-nascidos. Para
além disso, 24.5% dos recém-nascidos nasceram com baixo peso e
19.1% antes de termo.
7.3.
Questões Legais relacionadas com o consumo/tráfico de drogas
A lei portuguesa distingue entre traficante, consumidor e
traficante-consumidor com base na quantidade de droga apreendida.
Os resultados obtidos revelam que entre 1988 e 1993 o número
de presumíveis infractores aumentou 36% por ano. Este número
registou uma diminuição em 1993 e em 1994. Em 1995, o número
de presumíveis infractores aumentou novamente - de 4708 casos em
1994 para 6380 em 1995 (ver quadro IV).
QUADRO IV
PRESUMÍVEIS INFRACTORES,
SEGUNDO O ANO, POR SITUAÇÃO
FACE À DROGA E SEXO
1988-1995
|
Ano |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
| |
TOTAL |
1988 |
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
1995 |
| Situação/Sexo |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
10 |
| Total |
35 197 |
1 845 |
2 534 |
3 586 |
4 667 |
6 280 |
5 197 |
4 708 |
6 380 |
| Traficante |
9 787 |
444 |
533 |
620 |
918 |
1 618 |
1 815 |
1 656 |
2 183 |
| Masculino |
8 149 |
375 |
461 |
535 |
778 |
1 362 |
1 494 |
1 393 |
1 751 |
| Feminino |
1 609 |
69 |
72 |
85 |
140 |
256 |
292 |
263 |
432 |
| Desconhecido |
29 |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
29 |
.. |
.. |
| Consumidor |
16 437 |
1 029 |
1 438 |
2 229 |
2 567 |
2 343 |
2 132 |
1 687 |
3 012 |
| Masculino |
15 014 |
973 |
1 351 |
2 049 |
2 364 |
2 159 |
1 876 |
1 536 |
2 706 |
| Feminino |
1 336 |
56 |
87 |
180 |
203 |
184 |
169 |
151 |
306 |
| Desconhecido |
87 |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
87 |
.. |
.. |
| Traf.- Cons. |
6 138 |
372 |
563 |
737 |
1 182 |
545 |
658 |
896 |
1 185 |
| Masculino |
5 573 |
342 |
535 |
665 |
1 077 |
485 |
574 |
816 |
1 079 |
| Feminino |
551 |
30 |
28 |
72 |
105 |
60 |
70 |
80 |
106 |
| Desconhecido |
14 |
.. |
.. |
.. |
.. |
.. |
14 |
.. |
.. |
| N/ Espec. |
2 835 |
.. |
.. |
.. |
.. |
1 774 |
592 |
469 |
.. |
Fonte: TCD e TCD/SDL (Instrumentos de notação
estatística da Polícia Judiciária).
Retirado de: Ministério da Justiça - Droga:
Sumários de Informação Estatística: 1995. Lisboa, GPCCD,
1996.
Em 1995, 34.2% dos presumíveis infractores eram traficantes,
47.2% eram consumidores e 18.6% eram traficantes-consumidores
(ver quadro IV). Dos 2760 indivíduos pronunciados, 2198 foram
condenados, 57.7% eram traficantes, 36.7% eram consumidores e
5.6% eram consumidores-traficantes (ver quadro V) .
QUADRO V
INDIVÍDUOS CONDENADOS,
SEGUNDO A SITUAÇÃO FACE À DROGA,
POR TIPO DE DROGA
1995
|
Situação |
|
|
|
| |
TOTAL |
TRAFICANTE |
CONSUMIDOR |
TRAF.-CONS. |
| Tipo de Droga |
|
|
|
|
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
|
1994 |
1 683 |
952 |
651 |
80 |
| Total
Geral |
|
|
|
|
|
1995 |
2 198 |
1 269 |
806 |
123 |
| Heroína |
1 207 |
671 |
450 |
86 |
| Haxixe |
350 |
162 |
178 |
10 |
| Cocaína |
118 |
93 |
23 |
2 |
| Liamba |
33 |
12 |
21 |
.. |
| Fármacos |
12 |
6 |
6 |
.. |
| Polidrogas |
451 |
319 |
108 |
24 |
| Desconhecida |
27 |
6 |
20 |
1 |
Fonte: Tribunais
Retirado
de: Ministério da Justiça - Droga: Sumários de
Informação Estatística: 1995. Lisboa, GPCCD, 1996.
Assim, em 1995, foram detidos pela polícia,
proporcionalmente, mais consumidores do que traficantes, mas
foram condenados mais traficantes do que consumidores.
Esta variação pode ser explicada com base na Lei da Droga de
1993.
Esta tendência também se encontra reflectida no número de
indivíduos condenados a prisão por tipo de crime: em Dezembro
de 1995, do total de reclusos condenados (1940 casos), 82.8% era
traficante, 0.5% era consumidora e 11.1% era
traficante-consumidora.
Face ao tipo de droga envolvida , em 1995, verifica-se que,
dos presumíveis infractores 77.6% transportava heroína, 6.4%
cocaína e 14.4% haxixe (ver quadro V). Verifica-se também que
no total de indivíduos condenados, 54.9% transportava heroína,
5.4% cocaína e 15.9% haxixe (ver quadro VI).
QUADRO VI
INDIVÍDUOS CONDENADOS,
SEGUNDO O ANO, POR TIPO DE DROGA
1989-1995
|
Ano |
|
|
|
|
|
|
|
|
| |
TOTAL |
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
1995 |
| Tipo de Droga |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
| Total |
10 664 |
a) |
|
|
|
|
|
2 198 |
| Heroína |
4 636 |
217 |
262 |
275 |
580 |
1 195 |
900 |
1 207 |
| Haxixe |
3 195 |
655 |
634 |
423 |
346 |
496 |
291 |
350 |
| Cocaína |
556 |
67 |
61 |
50 |
79 |
108 |
73 |
118 |
| Liamba |
77 |
14 |
1 |
.. |
.. |
11 |
18 |
33 |
| Fármacos |
17 |
3 |
2 |
.. |
.. |
.. |
.. |
12 |
| Polidrogas |
1 843 |
134 |
149 |
112 |
244 |
397 |
356 |
451 |
| Desconhecida |
340 |
12 |
89 |
107 |
14 |
46 |
45 |
27 |
a) O valor indicado deverá ser deduzido
de 20, para encontrar o número real de indivíduos,
devido à existência de penas cumulativas (1 082).
Fonte: Tribunais. Retirado de: Ministério da
Justiça - Droga: Sumários de Informação
Estatística: 1995. Lisboa, GPCCD, 1996.
É interessante notar, no entanto, que existe uma inversão na
tendência relativa à heroína e ao haxixe. Assim, se, em 1989,
apenas 20.1% dos condenados transportava heroína, contra 60.5%
que transportava haxixe, em 1995, uma grande maioria dos
condenados transportava heroína (54.9%, contra 15.9% que
transportava haxixe). É ainda de referir que o número de
condenados que transportava polidrogas tem vindo a aumentar: em
1989, 12.4% dos condenados transportava polidrogas e em 1995 essa
percentagem era de 20.5% (ver quadro VI).
Quanto ao sexo, em 1995, verifica-se que as
mulheres constituem apenas 13.2% do total de presumíveis
infractores, representando 19.8% do total de traficantes e 10.2%
do total de consumidores. Do total de casos condenados, apenas
11.1% pertence ao sexo feminino (ver quadro VII).
QUADRO VII
INDIVÍDUOS CONDENADOS,
SEGUNDO O ANO,
POR SITUAÇÃO FACE À DROGA
E SEXO
1988-1995
|
Ano |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
| |
TOTAL |
1988 |
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
1995 |
| Situação/Sexo |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
10 |
| Total |
11 567 |
903 |
a) |
|
|
|
|
|
2 198 |
| Traficante |
5 038 |
361 |
341 |
378 |
387 |
561 |
789 |
952 |
1 269 |
| Masculino |
4 372 |
316 |
309 |
340 |
348 |
492 |
674 |
801 |
1 092 |
| Feminino |
666 |
45 |
32 |
38 |
39 |
69 |
115 |
151 |
177 |
| Consumidor |
5 878 |
480 |
707 |
738 |
499 |
614 |
1 383 |
651 |
806 |
| Masculino |
5 522 |
451 |
671 |
707 |
470 |
585 |
1 290 |
592 |
756 |
| Feminino |
356 |
29 |
36 |
31 |
29 |
29 |
93 |
59 |
50 |
| Traf.-Cons. |
651 |
62 |
54 |
82 |
81 |
88 |
81 |
80 |
123 |
| Masculino |
589 |
57 |
51 |
79 |
75 |
75 |
75 |
71 |
106 |
| Feminino |
62 |
5 |
3 |
3 |
6 |
13 |
6 |
9 |
17 |
a) O valor indicado deverá ser deduzido
de 20, para encontrar o número real de indivíduos,
devido à existência de penas cumulativas (1 082).
Fonte: Tribunais. Retirado de: Ministério da
Justiça - Droga: Sumários de Informação
Estatística: 1995. Lisboa, GPCCD, 1996.
Sobre o grupo etário, nota-se que o grupo etário dos 21 aos
29 anos é o que tem maior peso entre os presumíveis infractores
(representando 48.4% do total de presumíveis infractores),
seguido do grupo dos 30 aos 44 anos (32.8%). É interessante
observar que, em todos os grupos etários, o consumidor é a
categoria de infractor com maior peso. Por exemplo, no grupo
etário dos 21 aos 29 anos, 49.4 % são consumidores e 31.4 %
traficantes. No grupo etário dos 30 aos 44 anos, 44.1% são
consumidores e 37.7 % traficantes. Regista-se, todavia, uma
excepção para o grupo etário dos maiores de 45 anos, com 62.4%
traficantes e apenas 25.4% consumidores (ver quadro VIII).
QUADRO VIII
PRESUMÍVEIS INFRACTORES,
SEGUNDO A SITUAÇÃO
FACE À DROGA, POR GRUPO
ETÁRIO
1995
|
Ano |
|
|
|
|
|
| |
TOTAL |
TRAFICANTE |
CONSUMIDOR |
TRAF.-
CONS. |
N/ESPEC. |
| Grupo Etário |
|
|
|
|
|
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
|
1994 |
4 708 |
1 656 |
1 687 |
896 |
469 |
| Total Geral |
|
|
|
|
|
|
1995 |
6 380 |
2 183 |
3 012 |
1 185 |
.. |
| <16 Anos |
86 |
36 |
36 |
14 |
.. |
| 16-20 |
943 |
282 |
484 |
177 |
.. |
| 21-29 |
3 085 |
968 |
1525 |
592 |
.. |
| 30-44 |
2 093 |
789 |
923 |
381 |
.. |
| >45 Anos |
173 |
108 |
44 |
21 |
.. |
Fonte: TCD e TCD/SDL (Instrumentos de
notação estatística da Polícia Judiciária)
Retirado de: Ministério da Justiça - Droga:
Sumários de Informação Estatística: 1995. Lisboa,
GPCCD, 1996.
O grupo etário dos 21 aos 29 anos tem registado, desde 1988,
o maior peso entre os presumíveis infractores. Contudo, entre
esta data e 1995 regista-se uma inversão relativamente aos
grupos etários dos 16 aos 20 anos e dos 30 aos 44 anos. Assim,
em 1988, o grupo etário dos 16 aos 20 representava 23.7% do
total de presumíveis infractores e o grupo etário dos 30 aos 44
anos representava apenas 16.9%. Em 1995, o primeiro grupo
representava 14.8% do total dos presumíveis infractores e o
segundo 32.8% (ver quadro IX).
QUADRO IX
PRESUMÍVEIS INFRACTORES,
SEGUNDO O ANO, POR GRUPO ETÁRIO
1988-1995
Fonte: TCD e TCD/SDL (Instrumentos de notação
estatística da Polícia Judiciária)
Retirado de: Ministério da Justiça - Droga:
Sumários de Informação Estatística: 1995. Lisboa, GPCCD,
1996.
No âmbito das condenações, em 1995, o grupo etário com
maior peso é o de mais de 29 anos (36.2% dos condenados),
seguido do grupo dos 25 aos 29 anos (27.5%). É interessante
notar que nem sempre foi esta a tendência: até 1991 a categoria
etária dos 20 aos 24 anos tinha maior peso do que a categoria de
mais de 29 anos - era, aliás, a categoria com maior peso
relativamente a todas as outras. Por exemplo, em 1989, 31.9% dos
condenados pertencia à categoria dos 20 aos 24 anos, 26.8% à
categoria dos 25 aos 29 anos e 22.5% à categoria de mais de 29
anos (ver quadro X).
QUADRO X
INDIVÍDUOS CONDENADOS,
SEGUNDO O ANO, POR GRUPO ETÁRIO
1989-1995
|
Ano |
|
|
|
|
|
|
|
|
| |
TOTAL |
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
1995 |
| Grupo Etário |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
| Total |
10 664 |
* |
|
|
|
|
|
2 198 |
| < 16 Anos |
3 |
.. |
.. |
.. |
.. |
1 |
1 |
1 |
| 16-19 |
976 |
127 |
129 |
92 |
116 |
210 |
141 |
161 |
| 20-24 |
2 967 |
345 |
413 |
276 |
337 |
626 |
412 |
558 |
| 25-29 |
2 881 |
290 |
309 |
244 |
336 |
628 |
469 |
605 |
| > 29 Anos |
3 127 |
243 |
274 |
245 |
352 |
613 |
604 |
796 |
| Desconhecido |
710 |
97 |
73 |
110 |
122 |
175 |
56 |
77 |
a) O valor indicado deverá ser deduzido
de 20, para encontrar o número real de indivíduos,
devido à existência de penas cumulativas (1 082).
Fonte: Tribunais. Retirado de: Ministério da
Justiça - Droga: Sumários de Informação
Estatística: 1995. Lisboa, GPCCD, 1996.
Quanto ao nível de instrução, constata-se que a maior parte
dos presumíveis infractores tem o ensino básico (66.1%), sendo
32.7% traficantes, 46.9% consumidores e 20.5%
traficantes-consumidores. No grupo dos que possuem o ensino
secundário (397), 13.1% são traficantes, 69.5% consumidores e
17.4% traficantes-consumidores. É interessante notar que, pelo
contrário, entre os presumíveis infractores analfabetos (185),
a maior parte é traficante (67.6%).
A evolução destes números ao longo dos anos (ver gráfico
XI) indica que, entre 1988 e 1993, o número de presumíveis
infractores com o ensino básico e com o ensino secundário
apresenta uma tendência crescente semelhante e que, a partir de
1994, esses números começam a divergir: o número de
presumíveis infractores com o ensino básico aumenta e o número
daqueles com o ensino secundário diminui.
Gráfico XI
Fonte: Ministério da Justiça, Sumários
de Informação Estatística, : 1995, GPCCD, Lisboa,
1996
Um outro dado interessante diz respeito ao domicílio.
Verifica-se que a maior parte dos presumíveis infractores que
vive com os seus pais ou companheiro/a ou que tem uma casa
própria é presumível consumidor (53.8%), e os que vivem noutro
tipo de domicílios são fundamentalmente presumíveis
traficantes (50.4%).
8. Disponibilidade e
Oferta
8.1. Fontes de
proveniência
A análise dos dados relativos ao ano de 1995, revela que cada
tipo de droga apreendido provém, fundamentalmente, de países
distintos. Assim, 18.8% da heroína apreendida provém de Espanha
sendo a maioria de origem desconhecida (66.5%). A cocaína
provém principalmente da Colômbia (48.4%). O haxixe de Marrocos
(47.0%) e de São Tomé e Príncipe (46.0%). A liamba provém
quase exclusivamente de Angola (65,0%), sendo 35.3% do total
apreendido de origem desconhecida (ver quadro XI).
QUADRO XI
DROGA APREENDIDA, POR PAÍS
DE PROVENIÊNCIA
(Gramas)
1995
| |
|
|
|
|
|
Tipo de Droga |
|
|
|
|
| |
HEROÍNA |
COCAÍNA |
HAXIXE |
LIAMBA |
| País de Proveniência |
|
|
|
|
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
|
1994 |
89 038 |
1 719 413 |
40 392 698 |
32 694 |
| Total Geral |
|
|
|
|
|
1995 |
65 507 |
2 115 835 |
7 333 287 |
159 892 |
| Angola |
.. |
.. |
.. |
103 418 |
| Bolívia |
.. |
29 900 |
.. |
.. |
| Brasil |
.. |
201 106 |
15 |
.. |
| Cabo Verde |
.. |
10 015 |
.. |
.. |
| Colômbia |
4 650 |
1 024 230 |
2 |
.. |
| Equador |
.. |
10 |
.. |
.. |
| Espanha |
12 289 |
474 |
1 881 |
25 |
| França |
.. |
.. |
12 |
.. |
| Guiné-Bissau |
5 |
5 460 |
16 893 |
.. |
| Holanda |
3 500 |
14 733 |
14 |
15 |
| Luxemburgo |
.. |
15 |
.. |
.. |
| Marrocos |
.. |
.. |
3 444 103 |
.. |
| Moçambique |
.. |
.. |
21 380 |
.. |
| Paquistão |
2 |
.. |
.. |
.. |
| São Tomé e Príncipe |
.. |
.. |
3 368 425 |
.. |
| Suécia |
.. |
500 |
.. |
.. |
| Turquia |
1 467 |
.. |
.. |
.. |
| Venezuela |
.. |
692 272 |
.. |
.. |
| Desconhecido |
43 594 |
137 120 |
480 562 |
56 434 |
Fonte: TCD e TCD/SDL (Instrumentos
de notação estatística da Polícia Judiciária).
Retirado de: Ministério da
Justiça - Droga: Sumários de Informação Estatística: 1995.
Lisboa, GPCCD, 1996.
8.2. Indicadores de
oferta
Existem dois tipos de indicadores quantitativos da oferta de
drogas - número de apreensões e quantidade apreendida.
No que diz respeito ao número de apreensões efectuadas pela
polícia e/ou nas alfândegas, verifica-se que este número tem
vindo a aumentar desde 1988. Contudo, registou-se uma
diminuição entre 1993 e 1994. Em 1995, o número de apreensões
aumentou 33.1% relativamente ao ano de 1994.
Até 1989, a canabis era responsável pelo maior número de
apreensões. A partir de 1991 passou a ser a heroína. Assim, do
total do número de apreensões de drogas ilícitas efectuadas em
Portugal no ano de 1995, 61.3% são devidas a heroína, 19.8% a
canabis e 18.9% a cocaína (ver quadro XII).
QUADRO XII
DROGA APREENDIDA, SEGUNDO O
ANO, POR TIPO DE DROGA
(Gramas)
1988-1995
| |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Ano |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
| Tipo |
TOTAL |
1988 |
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
1995 |
| de Droga |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
10 |
| Heroína |
479 757 |
33
417 |
60
612 |
35
973 |
61
805 |
41
371 |
92
034 |
89
038 |
65 507 |
| Cocaína |
8 460 529 |
301
492 |
793
101 |
360
350 |
1
094 197 |
1
860 039 |
216
102 |
1
719 413 |
2 115 835 |
| Haxixe |
134 034 739 |
342
796 |
4
595 381 |
9
545 112 |
7
629 972 |
11
711 941 |
52
483 552 |
40
392 698 |
7 333 287 |
| Liamba |
471 897 |
10 899 (a) |
32 080 (b) |
60 602 (c) |
123 462 (d) |
8 462 (e) |
43 806 (f) |
32 694 (g) |
159 892 |
| Outras |
|
2
117 |
134 (b) |
377 (c) |
615 |
.. |
.. |
.. |
2 967 (h) |
(a) Mais 104 plantas de Liamba e 66,68 kg de
Liamba verde
(b) Mais 429 plantas de Liamba e 8 comprimidos de LSD
(c) Mais 101 plantas de Liamba, 39 comprimidos de anfetaminas e
12 comprimidos de Depressores/Tranquilizantes
(d) Mais 850 plantas de Liamba
(e) Mais 200 kg de Liamba verde e 94 plantas de Liamba
(f) Mais 1 146 kg de Liamba verde e 98 plantas de Liamba
(g) Mais 74 plantas de Liamba, 728 pés e 3 arbustos.
(h) Mais 106 plantas, 139 pés e 6 sementes de Liamba, 613
comprimidos de Rohypnol, 530 comprimidos de Serenal, 28
comprimidos de Noostan, 2 comprimidos de Flurazepam, 5
comprimidos de Dinintel, 56 comprimidos de Sedex, 60 comprimidos
de Lorenin, 60 comprimidos de Oxazepam, 77 comprimidos de
Ecstasy, 1 embalagem de Metadona e 11 comprimidos de LSD
Fonte: TCD e TCD/SDL (Instrumentos de notação
estatística da Polícia Judiciária).
Retirado de: Ministério da Justiça - Droga:
Sumários de Informação Estatística: 1995. Lisboa, GPCCD,
1996.
Também se verifica que 86.8% do número total de apreensões
constituem casos de pequeno tráfico - de acordo com os
critérios de classificação adoptados pelas Nações Unidas
(ver quadros XIII e XIV).
QUADRO XIII
NÚMERO DE APREENSÕES,
SEGUNDO A DROGA, POR
QUANTIDADE NO ACTO DA
APREENSÃO
1995
|
Tipo de Droga |
|
|
|
| |
TOTAL |
HEROÍNA |
COCAÍNA a) |
| Tipo de Tráfico |
|
|
|
|
1 |
2 |
3 |
4 |
| Total |
3 700 |
2 828 |
872 |
| Pequeno Tráfico |
|
|
|
| (£ 10 gr) |
3 217 |
2 554 |
663 |
| |
|
|
|
| Médio Tráfico |
|
|
|
| (10 a 100 gr) |
297 |
218 |
79 |
| |
|
|
|
| Grande Tráfico |
|
|
|
| (> 100 gr) |
186 |
56 |
130 |
a) Os critérios adoptados para esta
classificação tiveram por base os seguidos pelas Nações
Unidas e já adoptados na síntese trimestral (tendo-se
introduzido uma separação entre os dados relativos ao Haxixe e
à Liamba)
Fonte: TCD e TCD/SDL (Instrumentos de notação
estatística da Polícia Judiciária)
Retirado de: Ministério da Justiça - Droga:
Sumários de Informação Estatística: 1995. Lisboa, GPCCD,
1996.
QUADRO XIV
NÚMERO DE APREENSÕES,
SEGUNDO A DROGA, POR
QUANTIDADE NO ACTO DA
APREENSÃO
1995
|
Tipo de Droga |
|
|
|
| |
TOTAL |
HAXIXE |
LIAMBA |
| Tipo de Tráfico |
|
|
|
|
1 |
2 |
3 |
4 |
| Total |
914 |
746 |
168 |
| Pequeno Tráfico |
|
|
|
| (£ 100 gr) |
786 |
656 |
130 |
| |
|
|
|
| Médio Tráfico |
|
|
|
| (100 a 1000 gr) |
55 |
44 |
11 |
| |
|
|
|
| Grande Tráfico |
|
|
|
| (> 1000 gr) |
73 |
46 |
27 |
Fonte: TCD e TCD/SDL (Instrumentos de notação
estatística da Polícia Judiciária)
Retirado de: Ministério da Justiça - Droga:
Sumários de Informação Estatística: 1995. Lisboa, GPCCD,
1996.
É interessante notar que a heroína constitui a droga
responsável pelo maior número de apreensões em 1995, mas não
é, de modo algum, a droga mais apreendida em termos de
quantidade. De facto, em 1995 a heroína representou apenas 0.7%
da quantidade total de drogas apreendidas, contra 75.8% de haxixe
e 21.9% de cocaína.
Os resultados obtidos pelo revelam que entre 1987 e 1995 a
quantidade de drogas ilícitas apreendidas tem aumentado, ainda
que de uma forma variável. A quantidade de haxixe apreendido tem
variado muito - desde quantidades mínimas apreendidas em 1988
(342.796 kg) até quantidades máximas em 1993 (52483.552 kg)
(ver quadro XII).
A quantidade de heroína apreendida tem sofrido uma variação
cíclica, marcada por períodos de grande crescimento. Por
exemplo, em 1993, registou-se um crescimento de 122%
relativamente a 1992. Em 1995, pelo contrário, registou-se,
relativamente a 1994, uma diminuição de 26.4% (ver quadro XII).
Também a quantidade de cocaína apreendida apresenta uma
tendência crescente. Em 1995, registou-se, relativamente a 1994,
um crescimento de 23.1% (ver quadro XII).
A pureza e os preços das drogas constituem dois outros
indicadores de oferta, embora, exista pouca informação sobre o
assunto.
No âmbito dos preços de venda no consumidor, os dados
obtidos pelo Estudo Multi-Cidades indicam que estes diminuíram,
entre 1994 e 1995, para todas as drogas ilícitas, na área da
Grande Lisboa, embora se mantenham iguais para Portugal
Continental.
Relativamente ao ano de 1995, verifica-se que o preço de
venda no consumidor de cocaína e de heroína são iguais e
bastante superiores relativamente ao de canabis, quer na Grande
Lisboa, quer em Portugal. Os preços de venda no consumidor de
todas as drogas ilegais praticados na área da Grande Lisboa são
inferiores aos praticados em Portugal (ver quadro XV).
QUADRO XV
PREÇOS DE VENDA NO
CONSUMIDOR POR TIPO DE DROGA EM ECUs em 1995
|
Área |
Cannabis |
Heroína |
Cocaína |
|
Grande Lisboa |
1.8-2.1 |
36-41 |
36-41 |
|
Portugal |
2.5 |
52-62 |
52-62 |
Fonte: PJ
Retirado de: Machado Rodrigues, L., et al. - Multy-city
study: Portugal - update 1995: Greater Lisbon. Lisboa, GPCCD,
1996.
Existe a convicção generalizada (mas não validada) de que o
grau de pureza da heroína e da cocaína diminui
proporcionalmente ao aumento do número de traficantes
intermédios e que, por esta razão, o grau de pureza das drogas
fora dos grandes meios urbanos é muito menor.
9.
Intervenção na Redução da Procura
Cada um dos Ministérios envolvidos no Programa Nacional de
Prevenção da Toxicodependência - Projecto VIDA tem
competência própria no âmbito da redução da procura e/ou
oferta. Na área específica da redução da procura, as
entidades responsáveis são:
· Alto Comissário - Tem
sido responsável pela coordenação de programas e financiamento
de ONGs. O Programa do Projecto VIDA é implementado, a nível
regional, pelos Núcleos Distritais do Projecto VIDA.
· Ministério da Educação -
Através do seu Programa de Promoção e Educação para a Saúde
(PPES), tem a responsabilidade da prevenção do consumo de
álcool/droga a nível escolar. Aos serviços centrais compete o
enquadramento metodológico, formação de técnicos, avaliação
do programa, representação nacional e internacional do programa
e a organização de actividades nacionais. O programa é
descentralizado a nível das autoridades escolares regionais e
locais e as orientações são adaptadas e aplicadas ao nível da
escola.
· Ministério da Saúde -
Dependem do Serviço de Prevenção e Tratamento da
Toxicodependência (SPTT) 5 Direcções Regionais, 3 Centros de
Informação e Aconselhamento (CIAC), 2 Comunidades Terapêuticas
e uma rede nacional de Centros de Atendimento de
Toxicodependentes (42 CATs e Extensões). O SPTT é a entidade
oficial responsável pelo licenciamento de ONG’s que
trabalhem na área do tratamento.
· Ministério para a
Qualificação e Emprego e o Ministério da Solidariedade e
Segurança Social - Têm uma acção relevante no
financiamento de estruturas e equipamento e de cooperação em
vários programas de prevenção primária e de reinserção. As
duas entidades têm serviços descentralizados.
As ONGs e os departamentos oficiais participam em programas de
cooperação internacional. Como exemplo, citam-se os projectos
Escolas Saudáveis da Organização Mundial de Saúde, rede ERIT
e rede REITOX. Existem ainda outros contactos e parceiros a
nível local, regional e nacional.
O Plano Estratégico trienal do Projecto VIDA deu prioridade
à prevenção primária, tratamento, formação e coordenação.
Também, em termos operacionais, a área do tratamento recebeu
significativo apoio financeiro e maior atenção legislativa e
política.
Na área da prevenção em geral, é consensual a necessidade
de implementar projectos globais que incluam estratégias
diferentes. Simultaneamente, é sentida a necessidade de
desenvolver programas mais específicos, dirigidos a grupos
concretos, (por exemplo, grupos experimentadores de drogas) ou
que foquem problemas específicos dos sexos. Os orgãos do
Projecto VIDA estabelecem anualmente as prioridades nesta área.
Em 1995, foi dada prioridade aos projectos em que o grupo alvo
eram crianças e jovens fora do ambiente escolar e jovens
desempregados, e a projectos centrados no desenvolvimento de
material educativo e na formação sobre prevenção. Foram
apoiadas técnica e financeiramente em 1996, 597 projectos de
Prevenção Primária de ONG’s.
Existe ainda uma Linha Telefónica de Ajuda do Projecto VIDA -
a Linha VIDA. Dispõe de 2 serviços - um em Lisboa e outro no
Porto. Está disponível de 2ª a 6ª feira das 10 às 20 horas e
actualmente as chamadas são gratuitas (em 1995 eram pagas pelo
utente).
No âmbito do tratamento, os CAT’s do Ministério da
Saúde funcionam para tratamento ambulatório. Os serviços
prestados incluem psicoterapia, terapia de grupo e familiar,
programas de substituição e programas de reinserção. Alguns
hospitais psiquiátricos ou serviços de psiquiatria de hospitais
gerais têm programas de tratamento em ambulatório. Também
algumas ONG’s prestam tratamento.
Os serviços de desintoxicação estão disponíveis em todos
os CAT’s, algumas ONG’s e alguns serviços hospitalares
de psiquiatria. Para os processos de desintoxicação há várias
abordagens. Na maioria dos casos, o processo de desintoxicação
é acompanhado de substâncias farmacêuticas, utilizadas em
regime ambulatório, de acordo com o doente, e tem a duração de
8 a 10 dias no caso de heroinodependentes. O processo é seguido
por um programa de tratamento de internamento numa comunidade
terapêutica, ou em ambulatório, frequentemente associado a uma
terapia de antagonistas de opiáceos.
As Forças Armadas têm programas de desintoxicação médica
nos serviços de psiquiatria e/ou tratamento de reabilitação
psico-social num serviço especializado de dependência química.
Depois de ter alta o indivíduo tem que se apresentar para
seguimento regular.
O toxicodependente preso tem também direito a assistência
médica nos serviços de saúde prisionais ou outros serviços de
saúde que colaboram com as autoridades prisionais. A aplicação
da Lei da Droga varia consoante os estabelecimentos prisionais e
a disponibilidade de técnicos e instalações. O Estabelecimento
Prisional de Lisboa tem um programa específico para
toxicodependentes presos que presta tratamento médico,
psicoterapia e apoio para reinserção a consumidores que a ele
adiram voluntariamente.
A Lei 45/96, de 3 de Abril, apela ao reforço da cooperação
entre os estabelecimentos prisionais e os serviços de saúde,
para assegurar os meios e instalações necessários ao
tratamento dos reclusos toxicodependentes.
Em Portugal existem vários modelos de tratamento por
internamento em diferentes ONG’s. As abordagens são muito
diferentes em termos de conceitos de abuso/dependência, da
estrutura interna, regras, actividades, envolvimento familiar e
duração do tratamento. A maior parte destes modelos considera
que deve fazer parte do processo de tratamento o apoio à
reinserção.
Todas as ONG’s que trabalham na área do tratamento da
toxicodependência têm que pedir licenciamento ao SPTT para
serem reconhecidas oficialmente. Apenas os clientes de ONG’s
licenciadas podem receber apoios estatais para programas de
tratamento.
Há duas comunidades de tratamento estatais dependentes do
SPTT, uma em Lisboa e outra em Coimbra, que trabalham em estreita
ligação com os CAT’s. O tratamento nestas instituições
é financiado pelo Estado.
Em Portugal, existem vários programas de substituição e
manutenção em metadona e/ou LAAM nos CAT’s e nos
hospitais. A tendência actual é implementar este tipo de
programa noutros centros de tratamento especializados.
A redução de risco é uma área de intervenção que
apresenta limites pouco definidos. Pretende atingir a prevenção
de problemas relacionados com consumo de drogas, especialmente em
grupos que não têm motivos para terminar o consumo ou receber
tratamento. Inclui a prevenção de HIV e SIDA, especialmente
entre os utilizadores que injectam drogas, os cuidados de saúde
primários para problemas relacionados com o uso de drogas, o
aconselhamento e a informação sobre uso de drogas.
Muitos destes programas são desenvolvidos por ONG’s com
serviços de porta aberta.
O acompanhamento inclui as acções que contribuem para a
reinserção de indivíduos que estiveram em tratamento e tem
como objectivo prevenir recaídas. Nos CAT’s este processo
desenvolveu-se em colaboração com instituições oficiais tais
como Centros de Emprego e dando aconselhamento sobre problemas
familiares, sociais ou legais.
As ONG’s prestam serviços de acompanhamento consoante a
metodologia seguida. Em alguns casos, o tratamento apenas se
considera após os clientes deixarem os apartamentos de
reinserção. Durante a estadia, os indivíduos são encorajados
a (re) começar a trabalhar e a prepararem-se para viver fora das
instituições de tratamento. Estas organizações têm
normalmente apoio financeiro da Direcção-Geral da Acção
Social.
10. Conclusões
10.1
Resumo dos pontos principais do relatório
O presente relatório sobre a situação da droga em Portugal
não pode deixar de constituir uma visão parcial do fenómeno.
Isto porque a informação disponibilizada tende a referir-se
principalmente a consumos problemáticos, isto é, aqueles que
conduzem à transgressão da lei ou que, por serem
descontrolados, levam mais frequentemente a tratamentos
especializados.
Em Portugal, o fenómeno da droga está a alastrar das grandes
áreas urbanas para as áreas rurais. Este agravamento
reflecte-se, não só nos indicadores estatísticos, mas também
na percepção social do problema. Em 1995, dois inquéritos
mostram que 68.8% da população considera que as drogas são a
principal causa da criminalidade e que para 74,4% dos inquiridos
as drogas são a principal preocupação.
A maior parte do que se afigura como sendo o problema das
drogas em Portugal relaciona-se com o uso de heroína. Todavia,
os indicadores de apreensão de drogas sugerem que o consumo de
outras drogas, em especial de cocaína, deverá ser elevado -
muito embora, menos nocivo até à data. Este padrões não
problemáticos de uso de droga continuam obscuros.
Quanto à proveniência geográfica de apreensão das drogas
18.8% da heroína apreendida provém de Espanha sendo a maioria
de origem desconhecida (66.5%). A cocaína provém principalmente
da Colômbia (48.4%). O haxixe de Marrocos (47.0%) e de São
Tomé e Príncipe (46.0%). A liamba provém quase exclusivamente
de Angola (65,0%), sendo 35.3% do total apreendido de origem
desconhecida.
No que diz respeito ao número de apreensões efectuadas pela
polícia e/ou nas alfândegas, verifica-se que este número tem
vindo a aumentar desde 1988. Contudo, registou-se uma
diminuição entre 1993 e 1994. Em 1995, o número de apreensões
aumentou 33.1% relativamente ao ano de 1994.
Até 1989, a canabis era responsável pelo maior número de
apreensões. A partir de 1991 passou a ser a heroína. Assim, do
total do número de apreensões de drogas ilícitas efectuadas em
Portugal no ano de 1995, 61.3% são devidas a heroína, 19.8% a
canabis e 18.9% a cocaína.
Também se verifica que 86.8% do número total de apreensões
constituem casos de pequeno tráfico - de acordo com os
critérios de classificação adoptados pelas Nações Unidas.
É interessante notar que a heroína constitui a droga
responsável pelo maior número de apreensões em 1995, mas não
é, de modo algum, a droga mais apreendida em termos de
quantidade. De facto, em 1995 a heroína representou apenas 0.7%
da quantidade total de drogas apreendidas, contra 75.8% de haxixe
e 21.9% de cocaína.
É curioso verificar que, embora a quantidade de cocaína
apreendida em 1995 seja mais elevada que a de heroína, 95% dos
toxicodependentes em tratamento nos CAT’s referem abuso de
heroína, o que sugere utilizações de outras drogas,
nomeadamente de cocaína, com menos incidência nos indicadores
de saúde.
O consumo de drogas sintéticas, que em certas zonas urbanas
se suspeita ser elevado, não se encontra documentado por não
ter ainda implicações legais e por não levar ao recurso a
tratamento. A falta de inquéritos à população geral sobre
esta questão não permite tirar conclusões.
A percentagem de toxicodependentes que apresenta serologia
positiva para as hepatites continua a aumentar. A inexistência
de outros dados sobre morbilidade das toxicodependências,
designadamente provenientes dos serviços de urgência, ou sobre
a sua gravidade e prevalência, não permite obter um
conhecimento mais claro deste aspecto.
Um aspecto legal muito relevante em termos de justiça social
prende-se com a aplicação da Lei da Droga (Decreto - Lei 15/93,
de 22-1) que prevê penas de prisão até um ano para infractores
capturados com quantidades superiores a três vezes a dose
diária.. Em 1995, 806 indivíduos foram condenados por consumo,
72 por posse de quantidades superiores a três vezes a dose
diária e 18 por consumo ocasional. Sabendo-se que a população
de utilizadores de drogas é de várias dezenas de milhar,
verifica-se como é variável, discricionária ou aleatória a
aplicação da lei.
No âmbito das condenações, em 1995, o grupo etário com
maior peso é o de mais de 29 anos (36.2% dos condenados),
seguido do grupo dos 25 aos 29 anos (27.5%). É interessante
notar que nem sempre foi esta a tendência: até 1991 a categoria
etária dos 20 aos 24 anos tinha maior peso do que a categoria de
mais de 29 anos - era, aliás, a categoria com maior peso
relativamente a todas as outras. Por exemplo, em 1989, 31.9% dos
condenados pertencia à categoria dos 20 aos 24 anos, 26.8% à
categoria dos 25 aos 29 anos e 22.5% à categoria de mais de 29
anos.
Sobre o grupo etário, nota-se que o grupo etário dos 21 aos
29 anos é o que tem maior peso entre os presumíveis infractores
(representando 48.4% do total de presumíveis infractores),
seguido do grupo dos 30 aos 44 anos (32.8%). É interessante
observar que, em todos os grupos etários, o consumidor é a
categoria de infractor com maior peso. Por exemplo, no grupo
etário dos 21 aos 29 anos, 49.4 % são consumidores e 31.4 %
traficantes. No grupo etário dos 30 aos 44 anos, 44.1% são
consumidores e 37.7 % traficantes. Regista-se, todavia, uma
excepção para o grupo etário dos maiores de 45 anos, com 62.4%
traficantes e apenas 25.4% consumidores.
Face ao tipo de droga envolvida , em 1995, verifica-se que,
dos presumíveis infractores 77.6% transportava heroína, 6.4%
cocaína e 14.4% haxixe. Verifica-se também que no total de
indivíduos condenados, 54.9% transportava heroína, 5.4%
cocaína e 15.9% haxixe
O mercado ilícito das drogas não pode ser devidamente
caracterizado dada a pouca acessibilidade da informação
correspondente. Seria desejável que os dados acerca da pureza
das drogas se referissem quer à grandes quantidades de droga
apreendida, quer à da comercialização na rua. Foi observado
que o preço das drogas estabilizou apesar da inflação e a sua
acessibilidade aumentou devido à multiplicação dos traficantes
que cobrem todo o território nacional, incluindo o interior do
país.
A consideração do conjunto dos vários indicadores sugere um
agravamento da situação, quer no que se refere aos consumos
quer no que se refere aos problemas relacionados com os consumos.
Por exemplo:
· O número de presumíveis
infractores aumentou 35,5% entre 1994 e 1995;
· O número de mortes causadas por
overdose também aumentou no mesmo período assim, verificaram-se
142 casos em 1994 e 196 casos em 1995;
· Os toxicodependentes representavam,
em 1990, 12,7% dos casos de SIDA e, em 1995, representam 51%
desses casos;
· O número de pedidos para primeiro
tratamento nos CAT’s aumentou em 29,7% entre 1994 e 1995 (no
entanto esta informação deve ser interpretada com reserva, pois
pode reflectir apenas a criação de mais centros, correspondendo
a um maior acesso ao tratamento para mais elevado número de
consumidores);
· O número de chamadas telefónicas
atendidas na Linha VIDA aumentou entre 1994 e 1995;
· Os inquéritos nas escolas revelam
um pequeno aumento na prevalência do consumo de droga e uma
prevalência relativamente alta nas áreas rurais do sul do
país.
Alguns indicadores são de difícil interpretação: o aumento
do número de apreensões e da quantidade de drogas apreendidas
reflecte um aumento da oferta/acessibilidade das drogas ou uma
maior eficácia dos agentes da polícia e das alfândegas? O
aumento do número de pedidos de primeiras consultas é o
resultado do aumento do número de toxicodependentes, do aumento
das consequências para a saúde devidas ao consumo de drogas ou
da criação de novos centros de tratamento especializados?
Importa pois investir na recolha e análise de indicadores
indirectos que possam complementar e clarificar a informação
fornecida pelos indicadores directos.
Ao nível da prevenção, a informação existente é também
escassa. Muito embora, haja um aumento significativo de projectos
apoiados, a grande parte pode ser considerada de prevenção
inespecífica, i.e., mais relacionada com a promoção da saúde
em geral do que com a prevenção do uso das drogas em
particular. Na generalidade estes programas não contemplam
metodologias de avaliação, quer da implementação, quer dos
resultados obtidos.
10.2.
Tendências relevantes e novos desenvolvimentos
Continuou o esforço governamental de abertura de CATs, para
que a sua cobertura atingisse o interior do país. Contudo, o
aumento dos meios terapêuticos não se reflectiu
significativamente na sua maior acessibilidade pois foram
preenchidos de imediato. Ao nível da política de saúde, cabe
ainda referir a aceitação crescente dos programas de
substituição, verificando-se um aumento do número de vagas
nesses programas.
No sistema judicial, a situação das drogas tem tido
repercussões graves no grupo dos presumíveis infractores e no
das condenações, tendo-se registado em ambos um aumento em
1995. A situação nas prisões tem contornos complexos, dada a
sua superpopulação e a existência de comportamentos de risco.
Num estabelecimento prisional de Lisboa funciona um programa de
tratamento, sendo a sua capacidade limitada face à dimensão do
problema.
Ao nível da prevenção, importa mencionar o esforço feito
pelo Gabinete do Alto Comissário para o Projecto VIDA em
estabelecer critérios de apoio para o desenvolvimento de
protocolos com ONGs, bem como uma maior preocupação em
desenvolver iniciativas de prevenção específicas. Estes
critérios especificam grupos-alvo prioritários, processos de
intervenção e resultados esperados.
Verifica-se uma maior preocupação quanto ao branqueamento de
capitais e às medidas para sua detecção e prevenção,
designadamente a sua criminalização no artigo 23º da Lei da
Droga; a sua não aplicação durante o ano de 1995 pode indiciar
a dificuldade em intervir nesta área.
Agradecimentos
A terminar impõe-se um renovado agradecimento a todas as
fontes de informação que tornaram possível este relatório.
11.
Definição de alguns indicadores epidemiológicos
Mortalidade - Ocorrência de número de óbitos numa
determinada população, durante um período de tempo
especificado.
Morbilidade - Conhecimento do número de casos de
doença que ocorrem numa dada população durante um período de
tempo especificado.
Incidência - Conjunto de casos novos de doenças que
surgem num período especificado de tempo, numa determinada
população
Prevalência - Número de casos de doenças existentes
em determinado momento numa dada população.
12. Glossário de Siglas
CAT - Centro de Apoio a Toxicodependentes - Ministério da
Saúde.
CEPD - Centro de Estudos e Profilaxia da Droga
CIAC - Centro de Informação e Aconselhamento
CICD - Centro de Investigação e Controle da Droga
CNLCS - Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA - Ministério
da Saúde.
GCCD - Gabinete Coordenador do Combate à Droga
GPCCD - Gabinete de Planeamento e de Coordenação do Combate
à Droga - Ministério da Justiça.
OEDT - Observatório Europeu das Drogas e da
Toxicodependência
ONG - Organização Não Governamental
PPES - Programa de Promoção e Educação para a Saúde -
Ministério da Educação.
SPTT - Serviço de Prevenção e Tratamento da
Toxicodependência - Ministério da Saúde.
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